Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Fale-se do que nos faz ficar em silêncio

Sou de palavras. Alterno entre as  muitas e as poucas e devo confessar que raramente me fico pelo silêncio. Existe,contudo, um momento em que me sinto tão impotente que as palavras falham. Existe um momento em que sinto que por muito que diga nunca vai ser suficiente. Falo-vos de morte. Falo-vos de um tema que gostamos muito pouco de falar.

 

Perco-me entre palavras de consolo e sentires impossíveis de sentir. Acredito que de uma forma mais ou menos cultural tratamos mal este tema. Temos medo daquilo que sabemos ser uma certeza. Fugimos do assunto e evitamos qualquer tentativa de abordagem. Entre “lamentos” e “não sei o que dizer” estamos presentes nos cultos, reflectimos sobre o que vale a pena, prometemo-nos viver de outra forma, e depois regressamos à nossa vida e absorvemo-nos mais uma vez no nosso dia-a-dia.

 

Acredito cada vez mais que só faz sentido viver se o fizermos de acordo com o que somos, o que queremos e o que sonhamos. Acredito nas essências transparentes e nas autenticidades aparentes. Sem mascaras. Viva-se apenas o que somos sem medos dos ridículos da vida. Como gostaria de ser recordada?Como mãe, como mulher e como eu mesma.

 

Marta Leal

Divas

Fala-se de cinema e lembro-me de divas. Das de ontem e das de hoje. Lembro-me de divas ao mesmo tempo que permito que o meu pensamento voe. Ao permitir que isso aconteça recordo uma conversa recente, onde se falava de heranças genéticas e heranças culturais enquanto seres e enquanto espécie. Evoluem as espécies e evoluem as características de género.

 

O homem está mais emocional e a mulher mais racional. Pacifico, compreensível e fruto de uma sociedade em constante mudança. Até aqui aplaudo de pé e com um sorriso de orelha a orelha. Surge-me contudo uma questão. Acredito que uma questão fruto da idade e da vivencia. 

 

Corremos o risco, enquanto mulheres, de perder os pequenos mimos de recebermos um ramo de flores sem razão aparente, de nos deixarem passar á frente, de nos abrirem a porta de um carro e de nos levarem os sacos? Corremos o risco de deixarmos de ser tratadas como divas?

 

Agora que penso nisso gosto de ser tratada como diva ao mesmo tempo que me assumo como mulher. Gosto de ser mimada ao mesmo tempo que me assumo determinada. Gosto daquilo que penso ser o segredo, equilíbrio no estar e no gostar.

 

Marta Leal

cinema

 

O mundo sussurrava-lhe vontades. A vida gritava-lhe apenas verdades. O mundo dizia-lhe que havia muito mais para ver. A vida afirmava que tinha de crescer. Algures no tempo sentiu-se impedida de sonhar. Algures no tempo sentiu-se impedida de avançar. Perdeu-se nas palavras da vida quando se queria ter encontrado com o mundo. Acomodam-se as vontades e deixam-se as tontarias. É-se aquilo que todos esperam que se seja.Revia-se na paixão das letras e na magia das histórias que lia. Sonhava nos ecrãs de cinema e encarnava vidas que acreditava poder viver.

 

Sonha-se apenas na tela de cinema que foi ficando cada vez mais pequena. Perde-se a magia da ida ao cinema e reduzimo-nos á sala de estar.  Perde-se a evasão do que nos rodeia e permitimo-nos que nos limitem. Acomodamo-nos ao que temos e não percebemos que nos limitámos no que fomos.

Cresce a ser heroína em silêncio.

 

Na infância veste as dores da Cinderela e acredita que um dia vai ter um príncipe encantado, na adolescência torna-se personagem principal de uma qualquer comédia romântica, sonha com personagens épicas e revê-se em personagens principais. Perdida em histórias dos outros esquece-se de escrever a sua. Avança e representa papéis impostos ou apenas vestidos como seus.

 

Por vezes, torna-se necessário reinventarem-se vidas, por vezes torna-se necessário reinventarem-se sonhos, necessidades e vontades. Reinvente-se num final e reescreva-se outra história. Aquela que um dia sonhou, aquela que um dia julgou poder ser sua. Reinvente-se numa exposição sincera de quem é e de quem decide ser. Inspire-se no que quer ser e no que alguns lhe ensinaram poder ser possível.  Autêntica no ser e transparente no querer.
Dispa-se de personagens e assuma-se quem se é na realidade. Faça-se da vida uma sala de cinema gigante onde se desempenhe o papel que se sempre se sonhou desempenhar. Permitamo-nos amar, ser e sentir.

 

Sente-se muito pouco nos nossos dias!!! Aplaudo de pé os que sentem de coração, amam com as entranhas e são apenas o que são. Aplaudo de pé os que despidos de defesas se permitem apenas a ser autenticos.

 

Marta Leal

 

Escrito por mim para a Fábrica de Histórias

 

Viver

Fantástico quando olhamos para dentro e nos permitimos sentir.  Por aqui não me basta sentir o sol na pele, torna-se necessário sentir o coração quente.
Por aqui não me basta sentir o vento na cara, tenho de sentir as emoções na pele.  Por aqui não me basta permitir-me estar, tenho de me permitir ser. E, quando falo em sentir, refiro-me a sentir com as entranhas, a vibrar de emoção e a deixar borboletas crescerem-me no estômago.  

 

De facto, para mim não basta sentir por sentir. Para mim é imprescindível sentir com alma mesmo que a mente me tente travar. Para mim é imprescindível viver sentindo, mesmo que para os outros não faça sentido nenhum.

 

Gosto! De viver com sentidos mesmo que por vezes faça inversão de marcha, entre por sentidos proibidos e me depare com becos sem saída.

 

Marta Leal

 

 

De regresso

De regresso á escrita depois de um mês intenso acredito cada vez mais que quando fazemos o que gostamos é como se o tempo parasse e a vontade se soltasse. Nos últimos tempos vivi momentos desses. Nos últimos tempos vivi momentos de entrega total e autentico desafio, nos últimos tempos vivi aquilo que sei que quero viver mais vezes.

 

Saudades vossas e das letras. Saudades de soltar os pensamentos e deixas as letras fluírem. Saudades de ser e de estar num sentir que é meu. Tão meu que me reconheço em cada momento, tão meu que me reconheço em cada palavra, cada letra e cada história.

 

Saudades da escrita sentida.
Saudades da escrita vivida.

 

 

Marta leal

Gosto dos Dias

Existem os dias em que nos faz falta o nosso mundo. O mundo em que nos refastelamos no sofá da nossa preguiça, olhamos a projecção das nossas ideias e alimentamo-nos dos nossos pensamentos. Os dias em que o dialogo interno nos diverte e o diálogo externo se revela distraído. Os dias em que corremos o risco de colocar os gatos no forno e o frango na cama dos gatos.

 

Os dias em que somos nós e eles, os nossos pensamentos. Gosto dos dias em que consigo estar no meu mundo. Gosto dos dias em que consigo sorrir comigo e para mim. Gosto dos dias em que me permito sonhar muito. Gosto dos dias em que me deixo apenas ser.

 

Marta Leal

Ele

 

 

 

Permitam-me os que me conhecem e não se espantem os que me desconhecem. Da minha parte esperar-se-ia uma história de amor mas hoje lamento desiludi-los. Também não se trata de desamores, trata-se apenas de decisões. Não se trata de não amar trata-se apenas de preservar. Decido num tom difícil com um sabor amargo. Não. Também não se trata de fora de tempo. Trata-se apenas de deixar o futuro em aberto.

 

Apaixonei-me em modo distraído. Avancei num sorriso abraçado e cresci num beijo sentido. Falam-se de emoções e o meu coração aperta-se. Não consigo descrever se de dor se de hesitação. Reconheço-me numa lamechice de vontades, de gestos e de palavras. Reconheço-me numa lamechice de queres não concretizáveis neste momento. Reconheço-me numa vontade de te ter, do teu toque, dos teus sussurros. Reconheço-me na vontade de nos tornarmos um enquanto nos sentimos aos dois.

 

 

Combinem-se as variáveis e recuso-me a despir o teu abraço, largar o teu sorriso e soltar-me do teu beijo. Combinem-se as variáveis e abraço-me ao teu sorriso enquanto te beijo de forma sentida. Combine-se o que se quiser num dia em que se decidir combinar.

 

 

(*) "Automat" de Edward Hopper

 

 

 

Desafio da Fábrica de Historias