Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Contos de Encontros e Desencontros

Gosto de cor de vida e cor na vida. Gosto de saber que vivo de acordo com as regras do arco-íris em vez de viver num qualquer canto a preto e branco. Agora que penso nisso começo a pensar que devíamos todos nascer com semáforos incorporados.

 

Este é aquele momento em que alguns de vós começam a questionar até que ponto não terei um parafuso solto. Mas deixem-me desenvolver só mais um bocadinho. Este é o bem da escrita, aqui ninguém nos interrompe, podem não continuar a ler mas pelo menos ninguém nos impede de continuar o nosso raciocínio. Dizia eu, ou melhor, escrevia eu que devíamos nascer com semáforo incorporado não só pela beleza da cor e pela alternância de tons mas também pelo significado das mesmas. Devíamos ter semáforos que nos impedissem de seguir em frente quando é suposto parar. Que nos deviam impelir para um futuro brilhante quando insistimos em hesitar. Que nos alertassem para caminharmos mais ou menos devagar consoante os perigos ou dificuldades.

 

Maria dos Anjos fazia parte daquelas mulheres frequentemente designadas como interessantes. Para mim era uma mulher bonita que se cuidava de uma forma muito própria, para os outros limitava-se a ser apenas uma mulher interessante. Recordo-me do rosto bem definido, pele clara e grandes olhos negros que sempre que nos serviam riam-se sem ser necessário mover um músculo sequer do rosto. Os olhos falavam num silêncio onde muitas vezes me pareceu que imperava a tristeza ou talvez o tédio. Era isso mesmo que me fazia pensar naquela mulher como sendo diferente das com que eu me tinha cruzado.

 

Não gosto de cabelos curtos mas a ela este penteado ficava-lhe bem. Não gosto de lábios pintados de vermelho mas não a imagino sem eles assim. O corpo vestia-se sempre de uma forma cuidada alternando entre o sensual e o maternal. Sempre a vi de cores claras e sempre pensei que a cor do exterior contrastava com a tristeza interior. Mulher, sem dúvida, trabalhadora, admirada por uns e invejada por outros. Discreta, atenta onde a agitação interior era abafada por uma serenidade aparente.

 

Engravidara cedo do primeiro namorado que tivera, para trás ficou o sonho de ser médica e rumar a outros destinos. Um dia sonhara andar por terras distantes, mudar o mundo e salvar aqueles que dela precisassem. Todos os sonhos de voluntarismo e altruísmo foram esmagados por uns momentos de prazer vividos atrás da igreja. Seguiu-se a reposição da honra por parte do João dos Camiões rapaz de muitos princípios mas pouca visão no futuro. Depois veio o nascimento do Joãozinho, a morte do seus pais e a necessidade de continuar à frente de um negócio que não a realizava mas que pagava as contas e a deixava numa posição económica confortável.

 

Passaram 10 anos desde a última vez que aqui estive. Tirando o pormenor da cor da parede que passou de laranja para branco e as cadeiras da esplanada que deixaram de ser vermelhas para serem daquele amarelo que fere a vista a qualquer ser humano que ouse olhá-las sem qualquer protecção, está tudo na mesma. O rosto de Maria dos Anjos foi substituído pelo rosto de Joãozinho cujo diminutivo não faz qualquer sentido neste momento. Calculo que tenha uns 20 anos, os olhos são os da mãe mas os dele são mais expressivos de alegria do que os dela alguma vez foram, o nariz e a tez é a do pai. Consigo compará-los porque este está ali sentado a um canto com rosto enrugado e postura de derrota. De facto só damos valor ao que temos quando sentimos que o vamos perder.

 

Acabaram de me contar que Maria dos Anjos fugiu há uns 6 meses. Acabaram-me de me contar que Maria dos Anjos se perdeu de amores por um turista britânico que tinha estado aqui na aldeia uns tempos de férias. Acabaram de me contar que foi uma surpresa para todos apesar da honestidade da mesma. Acabaram de me contar que depois de uma conversa com o marido e outra com o filho seguiu em frente certa do caminho para onde seguia. Acabaram de me contar que esta semana chegaram notícias e que Maria dos Anjos anda por terras de África. O sentimento por ela continua o mesmo, uns admiram-na em silêncio, outros invejam-na nas palavras de censura.

 

Eu, aqui sentado brindo a ela num silêncio de admiração. Recordo-a a passear pelas mesas, recordo o sorriso com vontade de chorar, e a simpatia forçada pela necessidade. Recordo o contentamento descontente de um caminho que foi forçada a escolher. Recordo o brilho no olhar quando conversávamos sobre este ou aquele local. Recordo as perguntas e os suspiros de quem anseia por algo. Eu, aqui sentado brindo a uma mulher que não hesitou em seguir em frente mesmo que no semáforo social brilhasse o vermelho. Eu, aqui sentado brindo a um rosto cujo semáforo emocional a fez seguir em frente num verde cheio de esperança. Eu, aqui sentado só não brindo aos meus medos aos que um dia quando se aperceberam do meu fascínio por ela acenderam o sinal amarelo que me fez ficar ali cheio de cuidados e anseios.

 

Gosto da cor da vida … daquela que nos faz caminhar por caminhos coloridos com ou sem semáforos ligados com ou sem avisos mais ou menos esperados.

 

Marta Leal

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2015
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2014
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2013
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2012
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2011
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2010
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D