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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Não sei porque pintei o cabelo de louro

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Não sei porque pintei o cabelo de louro. Não gosto de louro, nunca gostei de louro. A propósito lembrem-me de acabar com esta mania de não ouvir o que me perguntam quando estou no salão de cabeleireiro. Quanto mais olho menos gosto. Sinto-me estranha não me reconheço naquele espelho, sou eu sem o ser como se estivesse numa qualquer realidade paralela. Observo-me com mais atenção noto que me apareceram umas manchas novas no rosto, analiso as rugas que insisto ter e penso como será quando envelhecer, os meus olhos verdes grandes fixam-me mas não condizem com aquele cabelo louro que insiste em lembrar-me que ali está. Riu-me da ironia de hoje ser o dia em que o meu prazo acaba. O dia em que tenho de decidir. Não me apetece, não gosto que me encostem á parede, não gosto que me exijam decisões que deviam ser tomadas naturalmente. Ainda por cima hoje que estou loura e não gosto de estar. Interessante como existem dias em que até podia estar cor de laranja que não tinha importância nenhuma mas hoje é segunda-feira hoje interessa.

 

Enquanto me visto penso que gostaria de adivinhar o futuro. Poder experimentar caminhos antes de tomar grandes decisões. Devíamos poder fazer experiência em laboratório para depois nos podermos decidir com certezas estudadas. Não gosto de errar muito menos a uma segunda-feira. Odeio segundas-feiras mesmo que sejam de sol. Para confessar a verdade por mim saltava do domingo para a terça-feira. A propósito não gosto de ver este vestido vermelho com este cabelo louro. Pergunto a mim mesma o que visto com este cabelo enquanto me apercebo do que estou a fazer. Estou, sem sombra de qualquer dúvida a divagar para não pensar no que deve ser pensado.

 

Decido-me finalmente pelo preto. Gosto de me vestir de preto quando não me sinto bem comigo mesma. Saio apressada porque me atrasei entre pensamentos e medos de grandes decisões. Fecho a porta enquanto tento equilibrar todo o sem número de coisas que trago na mão. Um dia hei-de perceber porque compro malas onde mão cabe nada e mesmo assim insisto em transportar tudo.

 

Sinto a areia molhada nos pés e o sol a queimar-me a pele. Paro sem perceber como fui ali parar, sinto-me tonta, não percebo onde estou ou como fui ali parar. Sento-me enquanto me tento localizar no tempo e no espaço. Sou eu sem o ser.

 - Estás bem meu amor?

Olho-o e não o reconheço. Assusto-me sinto-me a enlouquecer. Há uns minutos atrás lutava contra a idiotice de um cabelo pintado de louro e agora não sei onde estou e com quem estou. Verifico que deve ter uns 40 anos rosto enrugado, moreno, corpo de quem se cuida. Cabelo onde se vislumbram os primeiros fios de prata. Interessante sem ser bonito afinal eu tenho 25 anos nunca me poderia apaixonar por alguém tão velho. Gosto, contudo, das mãos e dos calções. Sempre gostei de observar os calções que os homens vestem na praia. Sou eu sem dúvida. Acabei de o perceber com tanta divagação. Não sei onde estou mas sei quem sou.

Tento concentrar-me nas palavras que me diz. Está inquieto e preocupado. Tenta tocar-me mas afasto-o. Não gosto de ser tocada por desconhecidos. Fala-me com calma, diz-me que eu deveria ter comido mais ao pequeno-almoço, que tenho de acabar com a mania das dietas, que gosta de mim como sou. O pânico instala-se olho pela primeira vez para o meu corpo que não reconheço. O franzino deu lugar ao anafado. Sinto-me a ventilar mas a voz dele tem qualquer coisa que me acalma. Fala-me que temos de ir embora que os miúdos nos esperam para almoçar.  

 

Sonho só posso sonhar. Mas segundo consta quando se sonha é confuso mas isto é tão real. Os movimentos saem de forma automática, as palavras saem sem que as pense. Estou ali sem perceber como, estou ali como sempre tivesse estado. Deixo de tentar compreender o que se passa e deixo-me levar pelo ambiente que embora desconhecido me é tão familiar. Olho-me ao espelho e o louro deu lugar a um castanho claro, no rosto outrora liso já se notam umas rugas, passo as mãos pelo rosto na tentativa vã de me ver como me vi há umas horas atrás.

 

-Estás estranha hoje – diz-me ele enquanto me abraça.

Fixo-me no espelho que reflecte a nossa imagem. Reparo no brilho do olhar, na forma como me olha e na ternura que imana. Ficamos ali em silêncio enquanto tento reflectir sobre o bem-estar que sinto. Ouço as vozes dos miúdos que falam animadamente na sala, ao fundo ouço o som do mar que me parece murmurar para me deixar ir.

- Amo-te como no primeiro dia que te vi

- E quando foi esse dia?

- Dia 22 de Janeiro uma segunda-feira, éramos ambos louros, vestias-te de preto e chocaste contra mim ao sair do elevador.

- Não é possível …

 

-Não se preocupe eu ajudo a apanhar tudo.

- Desculpe, desculpe ..

- A culpa foi toda minha que nem olhei.

- Ou minha que não vi para onde ía.

Sinto-me estranha novamente. Sinto que viajei no tempo, olho e reconheço-o. Foi com ele com quem casei e tive filhos ou melhor é com ele com quem vou casar e ter filhos. Dou conta que encontro o amor da minha vida no dia em que estou loura e não gosto de o ser. Lembro-me que era hoje que tinha de dar uma resposta, que era hoje que tinha de tomar a grande decisão. Pelos vistos a decisão está tomada.

 

Dou conta que os meus medos desapareceram, que as inseguranças deram lugar a seguranças e que sim sei que vou ser feliz. Despeço-me dele com um beijo no rosto e um sorriso nos lábios. Estou em vantagem e gosto porque hoje dia 22 de Janeiro uma das muitas segundas-feiras da minha vida encontrei o amor da minha vida com quem vou ser muito feliz. A propósito preciso que me lembrem para nunca mais pintar o cabelo de louro.

 

Marta Leal

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