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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Percebi que não são tristezas são apenas lições de vida que se podem tornar em grandes aprendizagens

 

Conhecer as pessoas é como ler um livro. Vê-se a capa e tiram-se conclusões. Aproximamo-nos daquilo com que nos identificamos e temos tendência a repelir o que à primeira vista não faz parte de nós. Estranhamos o diferente e sentimo-nos seduzidos por aquilo que mais se identifica connosco. Muitas vezes ficamo-nos pela capa enquanto franzimos o nariz num acto mais ou menos de desdém. Outras vezes olhamos com curiosidade e atrevemo-nos a ir muito mais além de um título. Difícil, nos dias de hoje, chegar ao fim de um livro.

 

De uma forma resumida podemos dizer que nascemos e morremos. O que fica pelo meio caracteriza-se por uma busca de quem somos e do que somos. Antes de nascer iniciamos a procura do momento do ideal para nascermos, dos cheiros, das fisionomias e dos braços que nos embalam. Vamos crescendo numa busca constante de brincadeira e de um quando for grande quero ser. A adolescência caracteriza-se por uma procura do ser fixe, da identificação com o grupo e do desafio constante. Casam alguns, separam-se outros tantos. Perdemo-nos de quem somos e em certo momento questionamos.

 

Na maioria dos casos a vida nunca é aquilo que definimos, aquilo que sonhamos ou mesmo aquilo que entendemos que seja. As pessoas nem sempre são aquilo que pensamos que eram, aquilo que sonhamos que sejam ou aquilo que entendemos que devem ser. Porque, afinal, não se trata de nós, trata-se apenas deles, os outros. Pelo caminho temos ilusões e desilusões, sonhos desfeitos e sonhos alcançados, vitórias e derrotas, amores e desamores, riso e choro e muitas, mas mesmo muitas, certezas e dúvidas. Pelo caminho misturamos ingredientes, alteramos rotas, questionamos vontades e avançamos sempre com certezas absolutas ou apenas incertezas sentidas.

Normalmente é quando nos sentimos pior ou em situações limite que procuramos ajuda ou soluções. De uma forma ou de outra devoramos a informação como se de fast food se tratasse. Esquecemo-nos. Esquecemo-nos demasiadas vezes de saborear aquilo que insistimos em devorar: as aprendizagens e os conhecimentos. Acontece-me frequentemente. Acredito que seja fruto de uma vida apressada onde não fomos ensinados a parar e a saborear o que conquistámos. Já repararam que saltamos de objectivo para objectivo a querer mais e mais naquilo que se poderá designar de uma busca constante de uma satisfação inconstante? Já repararam que raramente paramos, apenas, para pensar? Por vezes também acontece que misturamos a realidade com a ficção. Sonha-se sobre o que se vive e vive-se sobre o que se sonha. Criam-se personagens que se cruzam connosco e a partir de determinado momento torna-se impossível saber o que é nosso e o que não é. Sonha-se muito e age-se muito pouco.

 

Perdoem-se mas será apenas impressão minha ou todos temos a mania de culpar a vida pelas decisões que tomamos? Acredito que os caminhos que tomamos são apenas fruto de escolhas nossas que nos aproximam de uns e de outros consoante os caminhos que decidimos trilhar. Acredito que todos os quadros que pintamos na vida são fruto de escolhas nossas, apenas nossas. E que a vida é apenas isso, um quadro com o cenário e as cores que lhe decidimos dar.

 

Tenho estado aqui a tentar mas não consigo ficar calada. Não sei se será defeito de género ou mesmo de personalidade. O que é um facto é que lá vou eu meter o bedelho novamente. Penso que existe um momento na vida em que todos temos saudades da nossa infância. Falta-nos o colo, falta-nos, sobretudo o colo daqueles que amamos. Falta-nos a desresponsabilização e as brincadeiras inocentes. Falta-nos o riso, a honestidade de opiniões e a sinceridade nos gestos. Irónico se pensarmos que em crianças queremos tanto crescer, e quando crescemos dávamos tudo para voltar a ser crianças. Esquecemo-nos de quem fomos e procuramo-nos constantemente nos outros

 

Parece-me pertinente parar e reflectir. Fazemos isto constantemente. Amamos de uma forma tão egoísta que se não formos correspondidos, cobramos. Cobramos atenção e cobramos tudo o que demos. Sei do que falo caro(a) leitor(a) porque um dia já me senti assim. Um dia já me apeteceu ficar, apenas, por ficar. Parar de lutar e entregar-me aos desânimos e às tristezas. Depois… bem … depois percebi que não são tristezas são apenas lições de vida que se podem tornar em grandes aprendizagens. Depois, percebi que era eu que decidia. Era eu que decidia entre cair e levantar, chorar e sorrir, parar e avançar. Mas perdoem-me, caros leitores, não é de mim que devia falar, ou talvez seja, quem sabe? Acredito que muitos já se identificaram e já se espelharam naquilo que acabei de escrever. Acredito, até, que muitos de vós sintam que tenham perdido a vontade de viver mas também acredito que perder a alegria de viver é perder a alegria de sentir, de acreditar e de sonhar. Mas voltemos de novo às letras para que o raciocínio não se perca.

 

E de que é que precisamos todos nós? Numa sociedade em que nos ocupamos cada vez mais, do que precisamos é de quem nos ouça. Apenas de quem nos ouça. Por vezes, ansiamos apenas por um debitar de palavras que nos organizem as ideias. Por vezes necessitamos apenas de uns ouvidos que ouçam e uns olhos que nos sorriam enquanto nos ouvimos a nós mesmos num inevitável debitar de palavras doces ou amargas.

 

Procuramos tanto mas esquecemo-nos de nos procurar num ser e num estar que é nosso, apenas nosso. Procuramos tanto mas esquecemo-nos de ser quem somos, apenas isso: sermos quem somos. Pare-se, por momentos, de procurar e sinta-se. Sinta-se apenas quem somos e para onde queremos ir.

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