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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

O Cofre

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Contaram-me que o dia era daqueles dias cheios de sol. A claridade incidia sobre o negro do pavimento e nas pedras da calçada, outrora colocadas por quem conhece o ofício. Contaram-me que o céu, nesse dia, estava de um azul intenso, tão intenso que parecia ter sido pincelado por um qualquer pintor cioso do seu trabalho. Contaram-me que as casas foram todas cuidadosamente caiadas de branco, os jardins primorosamente arranjados, as flores pareciam saber que algo se passava porque desabrocharam nesse dia como se, também elas, tivessem recebido convite para comparecerem à festa. 

 

O vento agreste, constante por essas bandas, transformou-se em aragem. O frio que se fazia sentir nesta época do ano desapareceu como que por milagre e deu lugar a um dia ameno. Ao cheiro a calor, a jardins cuidados, a flores despertas, juntava-se também o odor a comida, onde as sobremesas se misturam com o prato principal e onde isso não faz qualquer diferença, a não ser aos mais gulosos. 

 

Contaram-me, mas eu também me lembro, que ao fundo conseguiam ouvir-se os murmúrios de quem fazia os últimos preparativos para que nada faltasse e nada corresse mal. Lembro-me, especialmente de espreitar pela janela do meu quarto e pensar que não se via ninguém. Lembro-me de me ter questionado se o mundo ia acabar porque era assim que me tinham contado que ia ser. Que um dia as pessoas iam desaparecer uma a uma, que em vez de vozes passaria a existir silêncio e que quando menos déssemos por isso o mundo transformar-se-ia num local onde imperavam as coisas e deixavam de existir as pessoas. Contaram-me e, com a idade de 6 anos, eu acreditava no que me contavam.

 

Enquanto era vestido pela minha mãe, ela, perante a minha insistência, foi-me explicando o que iria acontecer. Explicou-me que era dia de S. Nunca. Contou-me que era um dia único e que só daí a muitos, muitos anos é que voltaria a acontecer. Contou-me que os que passassem por esse dia iriam ser pessoas de sorte para vida e com via plena. Contou-me também que hoje tudo era permitido. Que hoje era o dia. Aquele onde tudo pode ser pensado, ser pedido e ser sonhado. 

 

Lembro-me dos habitantes da aldeia se terem reunido na praça principal. Estavam lá todos os que viviam na minha aldeia. A Dona Balbina da padaria, com o seu cabelo louro cor de sol, tão armado que ela parecia ter crescido uns centímetros. O Senhor Manuel da Mercearia, com a sua camisa aos quadrados e o seu bigode que se via ter sido aparado. A Maria da taberna, sempre com as suas roupas vistosas e o decote generoso. O senhor João dos Camiões, com aquele ar sempre distante e meio altivo. Agora que penso nisso, lembro-me particularmente da Dona Georgina, a velha alcoviteira, sempre vestida de preto, cabelo branco preso em carrapito, com a sua carteira debaixo do braço. O que não esqueço é aquele olhar mortal, de ódio a tudo e a todos.

 

Desculpem, perdi-me em imagens de infância quando o que queria era contar-vos efectivamente o que aconteceu. Dizia eu que nos reunimos todos na praça principal. A praça estava toda engalanada com bandeiras, flores, luzes e outro sem número de decorações que eu nem me atrevo a descrever, tal era o mau gosto da coisa. Ao fundo estavam as mesas postas com toalhas brancas, flores de plástico a decorar e louça trazida de casa de uns e outros. No centro da praça encontrava-se o Doutor, o nosso médico, veterinário e também muito ilustre Presidente da Junta de Freguesia. Fora ele que tomara a iniciativa, fora ele que nos convocara e fora ele que tomara a decisão. Perto dele encontrava-se o famoso cofre de S. Nunca. 

 

E o que é o cofre do S. Nunca, devem-se estar a perguntar todos vocês. E porquê todo este aparato? E porque está uma aldeia toda reunida à volta de um cofre? Ora eu passo a explicar. Conta a lenda que o Dia de S. Nunca só aparece quando o S. Nunca assim o deseja. Reza a história que nesse dia todos os desejos, sonhos, vontades e planos devem ser cuidadosamente colocados nesse cofre para que possam ser realizados. Diz-se também que nesses dias se deve festejar como Nunca se festejou, comer como Nunca se comeu, viver como Nunca se viveu, e ser como Nunca se foi.

 

Naquele dia de S. Nunca à tarde, todos os habitantes colocaram, um a um, os seus pensamentos naquele cofre místico. Depois, seguindo a lenda, comeram até não caber mais nada, cantaram até lhes faltar a voz, dançaram até cair para o lado, abriram corações, choraram-se magoas, abraçaram-se inimigos, confessaram-se segredos inconfessáveis, sempre como se não existisse amanhã.  

 

Os habitantes nunca mais foram os mesmos, a aldeia transformou-se da noite para o dia e o dia de S. Nunca foi e será sempre o dia em que tudo foi permitido. Existiram coisas de que me lembro e existem coisas que me contaram. O tempo fez-me perder a exactidão do momento, o sentir da situação e a importância de ter estado ali e ter vivido o que vivi.

 

Voltei há uns dias para a aldeia. Voltei para a aldeia para beber dos sonhos e das vontades que percebi ter perdido enquanto crescia. E enquanto caminhava pelas ruas e os dias foram passando, percebi que o dia de S. Nunca é já recordado por poucos, até porque o cofre desapareceu de forma misteriosa. Um dia estava lá e no outro não estava. Com ele desapareceram desejos e vontades, virtudes e defeitos, amores e desamores, sonhos e realidades, autenticidades e vulnerabilidades. Com ele desapareceram os seres, os quereres, os sorrisos ….

 

E Tu ? Tens cuidado do teu cofre?

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