Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

O Cofre

Como-Fazer-um-Cofre-Abrir-300x300.jpg

 

Contaram-me que o dia era daqueles dias cheios de sol. A claridade incidia sobre o negro do pavimento e nas pedras da calçada, outrora colocadas por quem conhece o ofício. Contaram-me que o céu, nesse dia, estava de um azul intenso, tão intenso que parecia ter sido pincelado por um qualquer pintor cioso do seu trabalho. Contaram-me que as casas foram todas cuidadosamente caiadas de branco, os jardins primorosamente arranjados, as flores pareciam saber que algo se passava porque desabrocharam nesse dia como se, também elas, tivessem recebido convite para comparecerem à festa. 

 

O vento agreste, constante por essas bandas, transformou-se em aragem. O frio que se fazia sentir nesta época do ano desapareceu como que por milagre e deu lugar a um dia ameno. Ao cheiro a calor, a jardins cuidados, a flores despertas, juntava-se também o odor a comida, onde as sobremesas se misturam com o prato principal e onde isso não faz qualquer diferença, a não ser aos mais gulosos. 

 

Contaram-me, mas eu também me lembro, que ao fundo conseguiam ouvir-se os murmúrios de quem fazia os últimos preparativos para que nada faltasse e nada corresse mal. Lembro-me, especialmente de espreitar pela janela do meu quarto e pensar que não se via ninguém. Lembro-me de me ter questionado se o mundo ia acabar porque era assim que me tinham contado que ia ser. Que um dia as pessoas iam desaparecer uma a uma, que em vez de vozes passaria a existir silêncio e que quando menos déssemos por isso o mundo transformar-se-ia num local onde imperavam as coisas e deixavam de existir as pessoas. Contaram-me e, com a idade de 6 anos, eu acreditava no que me contavam.

 

Enquanto era vestido pela minha mãe, ela, perante a minha insistência, foi-me explicando o que iria acontecer. Explicou-me que era dia de S. Nunca. Contou-me que era um dia único e que só daí a muitos, muitos anos é que voltaria a acontecer. Contou-me que os que passassem por esse dia iriam ser pessoas de sorte para vida e com via plena. Contou-me também que hoje tudo era permitido. Que hoje era o dia. Aquele onde tudo pode ser pensado, ser pedido e ser sonhado. 

 

Lembro-me dos habitantes da aldeia se terem reunido na praça principal. Estavam lá todos os que viviam na minha aldeia. A Dona Balbina da padaria, com o seu cabelo louro cor de sol, tão armado que ela parecia ter crescido uns centímetros. O Senhor Manuel da Mercearia, com a sua camisa aos quadrados e o seu bigode que se via ter sido aparado. A Maria da taberna, sempre com as suas roupas vistosas e o decote generoso. O senhor João dos Camiões, com aquele ar sempre distante e meio altivo. Agora que penso nisso, lembro-me particularmente da Dona Georgina, a velha alcoviteira, sempre vestida de preto, cabelo branco preso em carrapito, com a sua carteira debaixo do braço. O que não esqueço é aquele olhar mortal, de ódio a tudo e a todos.

 

Desculpem, perdi-me em imagens de infância quando o que queria era contar-vos efectivamente o que aconteceu. Dizia eu que nos reunimos todos na praça principal. A praça estava toda engalanada com bandeiras, flores, luzes e outro sem número de decorações que eu nem me atrevo a descrever, tal era o mau gosto da coisa. Ao fundo estavam as mesas postas com toalhas brancas, flores de plástico a decorar e louça trazida de casa de uns e outros. No centro da praça encontrava-se o Doutor, o nosso médico, veterinário e também muito ilustre Presidente da Junta de Freguesia. Fora ele que tomara a iniciativa, fora ele que nos convocara e fora ele que tomara a decisão. Perto dele encontrava-se o famoso cofre de S. Nunca. 

 

E o que é o cofre do S. Nunca, devem-se estar a perguntar todos vocês. E porquê todo este aparato? E porque está uma aldeia toda reunida à volta de um cofre? Ora eu passo a explicar. Conta a lenda que o Dia de S. Nunca só aparece quando o S. Nunca assim o deseja. Reza a história que nesse dia todos os desejos, sonhos, vontades e planos devem ser cuidadosamente colocados nesse cofre para que possam ser realizados. Diz-se também que nesses dias se deve festejar como Nunca se festejou, comer como Nunca se comeu, viver como Nunca se viveu, e ser como Nunca se foi.

 

Naquele dia de S. Nunca à tarde, todos os habitantes colocaram, um a um, os seus pensamentos naquele cofre místico. Depois, seguindo a lenda, comeram até não caber mais nada, cantaram até lhes faltar a voz, dançaram até cair para o lado, abriram corações, choraram-se magoas, abraçaram-se inimigos, confessaram-se segredos inconfessáveis, sempre como se não existisse amanhã.  

 

Os habitantes nunca mais foram os mesmos, a aldeia transformou-se da noite para o dia e o dia de S. Nunca foi e será sempre o dia em que tudo foi permitido. Existiram coisas de que me lembro e existem coisas que me contaram. O tempo fez-me perder a exactidão do momento, o sentir da situação e a importância de ter estado ali e ter vivido o que vivi.

 

Voltei há uns dias para a aldeia. Voltei para a aldeia para beber dos sonhos e das vontades que percebi ter perdido enquanto crescia. E enquanto caminhava pelas ruas e os dias foram passando, percebi que o dia de S. Nunca é já recordado por poucos, até porque o cofre desapareceu de forma misteriosa. Um dia estava lá e no outro não estava. Com ele desapareceram desejos e vontades, virtudes e defeitos, amores e desamores, sonhos e realidades, autenticidades e vulnerabilidades. Com ele desapareceram os seres, os quereres, os sorrisos ….

 

E Tu ? Tens cuidado do teu cofre?

Consultoria de Planos de Desenvolvimento Pessoal

CapaFB.jpg

 

 

O Plano de Desenvolvimento Pessoal surge da necessidade de cada um de nós precisar de se auto conhecer, compreender, aceitar, educar, treinar e obter ferramentas para viver de uma forma equilibrada.

 

Precisamos de explorar e conhecer o nosso mundo. Precisamos de saber onde estamos e para onde queremos ir. Para isso precisamos de estabelecer metas para podermos fazer escolhas, sabendo que estas escolhas implicam forçosamente perdas.

 

Fases do processo:

 

  • Análise do estado actual e do estado desejado;
  • Analisar competências pessoais e comportamentais, atitudes, pontos fortes e a melhorar, crenças limitadoras e possibilitadoras, valores,  formações, experiências.
  • Definição do Plano;
  • Aplicação do Plano: este plano deve ser feito em etapas e introduzido no dia a dia do individuo, através de tarefas que devem ser cumpridas para que a mudança ocorra de forma sustentada;
  • É importante que ao longo do cumprimento do Plano exista o acompanhamento de um mentor.

 

Todo este trabalho pode ser feito presencial ou por skype e tem dois momentos específicos:

 

A Análise da realidade e a definição do plano;

O acompanhamento da aplicação do Plano de Desenvolvimento Pessoal.

 

Se queres saber mais informações manda email:martaleal@outlook.pt

"Alice:"Você pode me ajudar?"
Gato: "Sim, pois não."
Alice:"Para onde vai essa estrada?"
Gato:"Para onde você quer ir?"
Alice:"Eu não sei, estou perdida."
Gato: "Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve."
Lewis Carol – Alice no País das Maravilhas

Lista de Valores

download (11).jpg

 

Os valores são aquilo que é importante para ti na tua vida. Ao conheceres os teus valores vais perceber o que te conduz nas tuas atitudes e nos teus comportamentos. Construir uma vida congruente com os nossos valores significa mais satisfação na forma como vivemos e maior significado no que fazemos.

É importante termos em atenção que os valores alteram consoante nós alteramos. Os valores também podem estar relacionados com a situação que vives em determinado momento.

No que diz respeito a valores não há certo nem errado.

Agora reflecte sobre os valores pelos quais te reges e lista-os!

E existem os que nos deixam de lágrimas nos olhos

images (19).jpg

 E o que me move diariamente são palavras como estas. Obrigada Marta Vasconcelos eu também gosto muito de ti!

 
"Conheci a Marta Leal em Julho de 2011. Um  encontro fortuito num evento de um fim-de-semana. Em Fevereiro de 2012 tive novamente a oportunidade de estar num evento, desta feita de uma semana, onde a Marta também estava presente.
Uma presença presente, atenta, mas de backstages.
Nesta altura da minha vida, o lugar onde me encontrava, Eu, o meu interior, era conturbado, confuso. Estava a fazer uma caminhada por um deserto que não conhecia. Senti muitas vezes que estava perdida, que já não sabia quem era, ou o que anda a fazer, o que procurava. Como a Alice que não sabia para onde queria ir... Pensava Eu.
A Marta Leal sentiu, pressentiu a minha caminhada e como na história da pegadas da areia, pegou-me ao colo. Não para me dar o peixe, mas para me guiar e levar a acreditar que Eu sabia pescar e que podia novamente fazê-lo!
Com um coração e uma alma GRANDE, de quem sente e tem a capacidade de se colocar no lugar dos outros, acolheu-me e juntas percorremos uma caminhada até aos dias de Hoje. Pois é, nunca mais a larguei. Não por uma dependência de quem precisa que lhe esteja sempre a indicar um caminho, mas sim por sentir que faz parte da minha vida.
Estou muita grata à Marta Leal, pelas sessões de Coach que me fizeram encontrar o meu caminho de volta à minha essência. E hoje considero a Marta Leal uma mentora. Alguém com quem "bato" umas bolas e valido que estou a jogar na primeira divisão e com o objetivo de ganhar o campeonato. Jogo todos os dias, com a certeza, que estou comprometida com a minha equipa, que é a minha família, os meus amigos, as minhas actividades profissionais e as actividades extra que desenvolvo. Todos os dias acordo com uma força anímica que agradeço e com a consciência que a minha responsabilidade é acrescida por estar, enquanto SER HUMANO, onde estou. O meu estádio de consciência é hoje, em grande medida, devido ao Coach que fiz com a Marta Leal.
Nem tudo são rosas, os espinhos são parte integrante das rosas, mas quando somos coerentes com quem somos, tudo tem outro sentido, significado!
És realmente uma mulher FANTÁSTICA, com uma capacidade "sui generis" de conhecer, perceber e ajudar quem quer ser ajudado através do Coach. Tens feito uma caminhada bonita e acima de tudo COERENTE e CONGRUENTE com quem és.
Só alguém assim, que está de alma e coração, na função que desempenha pode chegar onde chegastes.
Acredito Eu que irás muito para além do que És hoje, mas sempre COERENTE e CONGRUENTE.
GOSTO MUITO DE TI
 
 
PS Deixo-vos o poema que menciono no meu testemunho.
De alguém que se revê neste poema!
 
Pegadas na areia
 
Uma noite eu tive um sonho.
 
Sonhei que estava andando na praia com o Senhor
e através do Céu, passavam cenas da minha vida.
 
Para cada cena que se passava, percebi que eram deixados
dois pares de pegadas na areia;
Um era meu e o outro do Senhor.
 
Quando a última cena da minha vida passou
Diante de nós, olhei para trás, para as pegadas
Na areia e notei que muitas vezes, no caminho da
Minha vida havia apenas um par de pegadas na areia.
 
Notei também, que isso aconteceu nos momentos
Mais difíceis e angustiosos do meu viver.
 
Isso entristeceu-me deveras, e perguntei
Então ao Senhor.
"- Senhor, Tu me disseste que, uma vez
que eu resolvi Te seguir, Tu andarias sempre
comigo, todo o caminho mas, notei que
durante as maiores atribulações do meu viver
havia na areia dos caminhos da vida,
apenas um par de pegadas. Não compreendo
porque nas horas que mais necessitava de Ti,
Tu me deixastes."
 
O Senhor me respondeu:
"- Meu precioso filho. Eu te amo e
jamais te deixaria nas horas da tua prova
e do teu sofrimento.
Quando vistes na areia, apenas um par
de pegadas, foi exactamente aí que EU,
nos braços...Te carreguei."

Como Geres o teu tempo?

ampulhea.jpg

 

 

 

Sinais de uma incorrecta gestão de tempo:

 

* Interrupções telefónicas constantes;

* Reuniões excessivas;

* Visitas causais sistemáticas;

* Interrupções frequentes;

* Ausência de um plano com objectivos e prioridades;

* Pouca delegação;

* Cálculos irrealistas de tempo;

* Deficiente triagem da informação recebida e transmitida;

* Serviços atrasados;

* Dificuldade em dizer não,

* Inexistência de estímulo à criatividade;

* Os teus colaboradores estão cansado e com autoconfiança em baixa?.

 

Dá que pensar não dá?

Cá Por casa

images.jpg

 

Quando recuo no tempo sei que tive sorte em ter infância, em partilhar momentos únicos com pessoas únicas, em ter-me sido ensinado o valor da família e sobretudo o valor de nós próprios. Ao recuar no tempo recordo tradições, recordo histórias que achava que nada significam e que retive até hoje, recordo lengalengas e canções muitas canções.

 

Cá por casa percebo que são muitas vezes os filhos que me ensinam a parar, a questionar comportamentos e a mudar de rota. Há dias em que sei que era importante ter mais tempo e há dias em que simplesmente não me apetece usá-lo. Trabalha-se e preguiça-se assim como se não existisse amanhã.

 

 Gosto. Gosto de um mundo que nos oferece tanto!

Marta Leal

Eu cá gosto de líderes que choram

images (7).jpg

 

 

Homem que é homem não chora e parece que líder que é líder também não. Mais … parece que líder que é líder não chora e não se vulnerabiliza perante os outros. Pelo menos é o que consta mas acreditem ou não,  eu não concordo nada com isso.

Eu cá gosto de líderes que choram e mesmo assim conseguem ter sucesso, atingir objectivos, levar multidões atrás deles e serem admirados tanto pelo que são como pelo que fazem. Confundem-me os Super heróis onde tudo é fácil, onde não se revela fraqueza, onde não se revela emoções, onde não se revelam falhanços porque é mau revelar que também têm medos, indecisões e fraquezas. Parece-me sempre que estou perante um autómato ausente de emoções e sentimentos.

Prefiro, prefiro muito mais um líder que falhe e que se levante depois de falhar, que chore e que também saiba sorrir, que hesite mas que avance com a certeza de saber para onde ir, que tenha medos mas que saboreie o momento em que os enfrenta. Prefiro um líder á minha imagem do que um líder que me faça sentir diferente.

Eu cá gosto de líderes que choram fazem-me sentir mais humana, muito mais humana.

 

Marta Leal

Mulher minha faz o que eu quero

images (4).jpg

 

Não era bonita nem feia. Contam-me os que se cruzaram com ela que tinha uma graça especial quase imperceptível aos olhos dos mais desatentos. Afinal de contas, todos temos algo especial para quem está atento a nós.

Cresceu num mundo de princesas e finais felizes. Foi princesa, foi guerreira, foi cavaleira e há quem diga que havia dias em que era fada. Foi tudo o que se permitiu sonhar. Sonhou que seria possível ser uma mulher de sucesso, a melhor mãe do mundo e a melhor esposa de sempre. Sonhou que um dia ia mudar o mundo. Sabia que sim, sabia que conseguia porque sabia do que era capaz. Saltitou entre queres e poderes, entre seres e teres, entre ilusões e desilusões fruto de uma adolescência onde crescer é tudo menos fácil.

Cresceu. Cresceu da mesma forma que todos os caros leitores crescem com medos, com dúvidas, com certezas e com vontades. Percebe-se que em certos momentos cresceu com pressa de crescer.

Casa. Casa não com o homem ideal mas com o homem por quem se apaixonou. Afinal de contas é o amor que deve comandar a vida não é verdade? O que seria o homem ideal se não existisse amor. Um dia, algures no tempo percebe que não se reconhece, perdeu-se dos sonhos, das fadas e das princesas e de si, sobretudo de si mesma. Um dia percebe que se enjaulada em frases como “mulher minha não faz, não vai, não veste” como se o seu querer não tivesse qualquer valor, como se o seu ser fosse menos que nada.

Não se reconhece no medo, na vergonha, nas chantagens, nas ameaças, nas humilhações, nas agressões e nas lágrimas. Sobretudo nas lágrimas que quase por magia foram substituindo o seu sorriso. Não se reconhece na propriedade privada de um ser que a trata como dono onde o seu querer e o seu estar são submetidos às decisões do seu amo e senhor.

Não se reconhece naqueles que estando perto de assobiam para o lado, nos que lhe dizem que é mesmo assim e que na vida há que fazer sacrifícios, nos que assistem e não defendem, nos que apontam e julgam, nos que se estivessem no lugar dela fariam diferente.

Eu também não me reconheço nos que falam sem saber e nos que julgam sem actuar. Eu também não me reconheço num encolher de ombros constantes face a uma situação que precisa de ser alterada.

Eu não me reconheço numa passividade que permite a humilhação e a agressão. Deve ser por isso eu tenho um sonho de ajudar outras mulheres a perceberem que ninguém tem o direito das maltratar e das humilhar. Que ninguém tem o direito de as considerar propriedade privada.

Eu tenho o sonho de ajudar cada vez mais mulheres a perceberem que existe vida para além da que têm.

Contos de Encontros e Desencontros

Gosto de cor de vida e cor na vida. Gosto de saber que vivo de acordo com as regras do arco-íris em vez de viver num qualquer canto a preto e branco. Agora que penso nisso começo a pensar que devíamos todos nascer com semáforos incorporados.

 

Este é aquele momento em que alguns de vós começam a questionar até que ponto não terei um parafuso solto. Mas deixem-me desenvolver só mais um bocadinho. Este é o bem da escrita, aqui ninguém nos interrompe, podem não continuar a ler mas pelo menos ninguém nos impede de continuar o nosso raciocínio. Dizia eu, ou melhor, escrevia eu que devíamos nascer com semáforo incorporado não só pela beleza da cor e pela alternância de tons mas também pelo significado das mesmas. Devíamos ter semáforos que nos impedissem de seguir em frente quando é suposto parar. Que nos deviam impelir para um futuro brilhante quando insistimos em hesitar. Que nos alertassem para caminharmos mais ou menos devagar consoante os perigos ou dificuldades.

 

Maria dos Anjos fazia parte daquelas mulheres frequentemente designadas como interessantes. Para mim era uma mulher bonita que se cuidava de uma forma muito própria, para os outros limitava-se a ser apenas uma mulher interessante. Recordo-me do rosto bem definido, pele clara e grandes olhos negros que sempre que nos serviam riam-se sem ser necessário mover um músculo sequer do rosto. Os olhos falavam num silêncio onde muitas vezes me pareceu que imperava a tristeza ou talvez o tédio. Era isso mesmo que me fazia pensar naquela mulher como sendo diferente das com que eu me tinha cruzado.

 

Não gosto de cabelos curtos mas a ela este penteado ficava-lhe bem. Não gosto de lábios pintados de vermelho mas não a imagino sem eles assim. O corpo vestia-se sempre de uma forma cuidada alternando entre o sensual e o maternal. Sempre a vi de cores claras e sempre pensei que a cor do exterior contrastava com a tristeza interior. Mulher, sem dúvida, trabalhadora, admirada por uns e invejada por outros. Discreta, atenta onde a agitação interior era abafada por uma serenidade aparente.

 

Engravidara cedo do primeiro namorado que tivera, para trás ficou o sonho de ser médica e rumar a outros destinos. Um dia sonhara andar por terras distantes, mudar o mundo e salvar aqueles que dela precisassem. Todos os sonhos de voluntarismo e altruísmo foram esmagados por uns momentos de prazer vividos atrás da igreja. Seguiu-se a reposição da honra por parte do João dos Camiões rapaz de muitos princípios mas pouca visão no futuro. Depois veio o nascimento do Joãozinho, a morte do seus pais e a necessidade de continuar à frente de um negócio que não a realizava mas que pagava as contas e a deixava numa posição económica confortável.

 

Passaram 10 anos desde a última vez que aqui estive. Tirando o pormenor da cor da parede que passou de laranja para branco e as cadeiras da esplanada que deixaram de ser vermelhas para serem daquele amarelo que fere a vista a qualquer ser humano que ouse olhá-las sem qualquer protecção, está tudo na mesma. O rosto de Maria dos Anjos foi substituído pelo rosto de Joãozinho cujo diminutivo não faz qualquer sentido neste momento. Calculo que tenha uns 20 anos, os olhos são os da mãe mas os dele são mais expressivos de alegria do que os dela alguma vez foram, o nariz e a tez é a do pai. Consigo compará-los porque este está ali sentado a um canto com rosto enrugado e postura de derrota. De facto só damos valor ao que temos quando sentimos que o vamos perder.

 

Acabaram de me contar que Maria dos Anjos fugiu há uns 6 meses. Acabaram-me de me contar que Maria dos Anjos se perdeu de amores por um turista britânico que tinha estado aqui na aldeia uns tempos de férias. Acabaram de me contar que foi uma surpresa para todos apesar da honestidade da mesma. Acabaram de me contar que depois de uma conversa com o marido e outra com o filho seguiu em frente certa do caminho para onde seguia. Acabaram de me contar que esta semana chegaram notícias e que Maria dos Anjos anda por terras de África. O sentimento por ela continua o mesmo, uns admiram-na em silêncio, outros invejam-na nas palavras de censura.

 

Eu, aqui sentado brindo a ela num silêncio de admiração. Recordo-a a passear pelas mesas, recordo o sorriso com vontade de chorar, e a simpatia forçada pela necessidade. Recordo o contentamento descontente de um caminho que foi forçada a escolher. Recordo o brilho no olhar quando conversávamos sobre este ou aquele local. Recordo as perguntas e os suspiros de quem anseia por algo. Eu, aqui sentado brindo a uma mulher que não hesitou em seguir em frente mesmo que no semáforo social brilhasse o vermelho. Eu, aqui sentado brindo a um rosto cujo semáforo emocional a fez seguir em frente num verde cheio de esperança. Eu, aqui sentado só não brindo aos meus medos aos que um dia quando se aperceberam do meu fascínio por ela acenderam o sinal amarelo que me fez ficar ali cheio de cuidados e anseios.

 

Gosto da cor da vida … daquela que nos faz caminhar por caminhos coloridos com ou sem semáforos ligados com ou sem avisos mais ou menos esperados.

 

Marta Leal