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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Se escrevesse sobre ti

“Pedem-me falar de ti. Ou melhor, pedem-me para escrever sobre ti. Nem hesito, apetece-me dizer tudo o que penso, tudo o que quero mas principalmente tudo o que me fazes sentir. Não me parece tarefa difícil para quem gosta de escrever sobre sentimentos e vontades.

 

As palavras são, contudo, refreadas por pensamentos que me fazem recuar no tempo. Recordo conversas tidas entre sorrisos. Recordo olhares trocados, que deram origem a pensamentos irreflectidos. Apetece-me ficar ali e reviver momento a momento, reviver aquilo que na altura não parecia ter importância mas que agora faz toda a diferença. Lembro que me contrariei entre a vontade que tinha de ficar e a obrigação que senti em ter de partir.

 

Ficaste em pensamento momentâneo nesta ou naquela ocasião. Ficaste num olhar que me tocou mais do que qualquer contacto físico. Sussurravas-me vontades sem saber onde as encontrar. Principalmente porque não sabia quem eras, onde estavas ou mesmo com o que poderia contar.

 

Depois recordo risos soltos, olhares cúmplices e toques propositados numa busca constante de proximidade.  Recordo certezas que se tornaram incertezas e incertezas que hoje são uma certeza. Perdemos tempo na análise mútua de um comportamento que nunca deveria ser analisado. Avançámos através de palavras soltas e recuámos por interpretações mais ou menos incorrectas. Perdemo-nos em sentimentos confusos quando devíamos seguir o mapa da intuição e caminharmos em direcção um ao outro.

 

Se tinha dúvidas sobre o que sentia elas foram facilmente apagadas com a excitação do primeiro encontro. As mãos transpiradas, o olhar que não sai do relógio, o vestir e despir a bem de uma imagem perfeita, e o ensaio repetido das primeiras palavras que vamos dizer. Perfeito, tinha de ser tudo perfeito.

 

Não sei se foi perfeito sei apenas que caminhámos numa cumplicidade de ideias, viajámos pela partilha de percursos e encontrámo-nos nas vontades de continuarmos em frente. Gostei do primeiro beijo, gostei do primeiro abraço, gostei da forma como seguraste a minha mão. Gostei principalmente da sensação de ter estado sempre ali e de sentir que era ali que queria estar. Já reparaste que a partir daí nunca mais nos largámos?

 

Mas agora reparo que me pediram para escrever sobre ti e tenho estado a escrever sobre nós. Deixa-me pensar. Se eu escrevesse sobre ti o que escreveria? Se algum dia escrevesse sobre ti começaria por dizer que és daquelas pessoas que é uma sorte conhecermos, diria que o respeito que tens pelas pessoas é de louvar, que a preocupação constante connosco é uma virtude e que essa meiguice toda reflecte um interior cheio de amor para dar. 

 

Se escrevesse sobre ti diria que gosto da forma como conseguiste desamarrar as asas e dos voos que começaste a dar, diria também que tenho orgulho no homem que foste mas sobretudo no homem que estás a ser. Diria também que gosto da forma como tens vencido fantasmas e lutado contra medos.

 

Se escrevesse sobre ti era minha obrigação dizer-te que a nossa história tem todos os dias um final feliz, no momento em que dizemos que nos amamos e adormecemos embalados na certeza do que sentimos e do que vivemos.

 

Se escrevesse sobre ti era agora que acabava a história só quando te contasse o quanto te amo, o quanto te quero e a sorte que tenho em te ter ao meu lado.”

 

Se escrevesse sobre mim diria que no dia em que me apaixonasse ia escrever assim, apenas assim, de coração bem cheio e sorriso bem grande, mas isso era apenas se escrevesse sobre ti.

 

Marta Leal

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