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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Da gaveta

Caminho perdido não sei que fazer. Sinto-me sem rumo, sem vontade e sem objectivos de vida. Ela tomou conta de mim mas eu não consigo tomar conta dela. Preciso de falar com alguém que me entenda. Mas como quero que alguém me entenda se eu próprio não me consigo entender.  Sinto-me mal sem ter razões para me sentir, ou talvez tenha. Já não sei que diga, já não sei que pense, já não sei sequer se estou na posse de todas as minhas capacidades intelectuais.

 

Hoje reservei o dia só para mim. O dia está lindo e apetece-me ser egoísta. Para falar a verdade eu sou egoísta. Gosto de o ser. Assumo-me como sou. Não tenho muita paciência para os outros e isso nem me incomoda. Não gosto de me preocupar com o que não me diz respeito. Enquanto observo o mar vejo-o a caminhar na minha direcção. Dou comigo a pensar o porquê de alguém tão novo caminhar com uma postura tão derrotista. Dou comigo a pensar o porquê de sermos todos tão diferentes numa igualdade aparente.

 

Vou-me sentar um pouco. Falta-me o fôlego, sinto-me a desesperar. Preciso tanto de falar com alguém. Alguém que não diga nada que só me ouça sem me julgar. Preciso de alguém que não me conheça e qua não saiba quem sou. Preciso de partilhar. Preciso de um olhar de compreensão acompanhado de uma boca silenciosa. Vejo-a ali sossegada com um ar tão tranquilo. Pergunto se me posso sentar um bocadinho. Afasto a cadeira para não incomodar e deixo-me ficar.

 

Era o que me faltava. Logo hoje que me apetece estar aqui a falar comigo mesma é que alguém se resolve sentar na minha mesa. Sim, na minha mesa e não tive sequer hipótese de recusar. O ar angustiado dele também não me permitia. Só espero que não comece para ali a falar porque eu sou tudo menos boa ouvinte dos problemas alheios. E este pelo ar está carregado deles.Impede-me a boa educação de me ir embora. Obriga-me a minha antipatia a desviar o olhar.

 

Começo a falar timidamente. Falo mais para mim do que para ela. Faço as perguntas e dou as respostas. De início acho que não me ouvia, agora olha para mim com um ar encorajador. Falo sem parar sobre a minha vida, os meus desejos e os meus fantasmas. Conto-lhe até episódios que me marcaram. Falo sem parar até que ela decide interromper-me e questionar.

 

Começou a falar, era o que eu temia. Também via-se logo pelo ar de desgraçadinho que trazia. Vou fazer de conta que não estou a ouvir assim pode ser que se cale. Quero lá saber se sente bem ou mal. Quero lá saber se sente perdido. Se sente perdido que se encontre que eu não tenho nada a ver com isso. Eu quando tinha a idade dele não tive tempo para me perder. Irra, não se cala. Começo a ouvi-lo com mais atenção. Aflitivo o estado do seu desespero. Melhor prestar-lhe atenção, melhor esquecer-me por momentos de quem sou e  preocupar-me a ser quem ele precisa que eu seja.

 

Não sei há quanto tempo aqui estou. Desabafei e sinto-me muito melhor. Só espero que ela não pense que sou maluquinho. Contei-lhe coisas que nem aos meus melhores amigos contei. Levantei-me, finalmente, peço desculpa por ter incomodado e retiro-me  aliviado.

 

Levantou-se com um ar muito mais confiante do que quando se sentou. A postura alterou-se de derrota para confiança. Agradece-me e eu sinto-me mal de todos os pensamentos que tive quando o vi sentar-se. Sorrio o que consigo sorrir. Digo-lhe que não tem de agradecer. Sorri diz que lhe faço parecer a mãe dele e que é estranho o quanto é mais fácil falar com um estranho do que com um amigo. Sai confiante. Eu, fico ali a questionar-me sobre quantos momentos de partilha este meu egoísmo excessivo me retirou. Ou mesmo no que a minha personalidade austera me fez perder. Eu fico ali a pensar em quem fui e no que podia ter sido.

 

Hoje voltámos à gaveta e demos um retoque naquilo que um dia escrevemos.

 

Marta Leal