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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Por favor não insistas!

 

Não insistas por favor.  Sabes que não sou uma contador de histórias sou um contador de sentimentos. Não te posso contar a minha história se eu mesmo não percebo. Não tem nexo, não faz sentido e para mim tudo tem de fazer sentido. Perdoa-me não te posso contar a histórias porque não sou um contador de histórias. Mas se quiseres conto-te sentimentos porque isso eu sei fazer. Queres? Mas atenção que podes não perceber eu próprio não percebo e auto-intitulo-me como um contador de sentimentos Eu mesmo não percebo e senti, eu mesmo não percebo e estive lá. Ás vezes penso que foi tudo um sonho. Um sonho que nos transporta para uma realidade que gostariamos que existisse, um sonho bom que depois se transformou em mau. Sabes quando acordas com aquela sensação confusa em que te recordas de apenas algumas coisas que sonhaste? Por isso não sei se te consigo contar porque não sei se consigo contar emoções sentidas e vividas.

 

Vivia cada dia de forma frenética, corria de um lado para o outro, queria estar com todos e não queria estar com ninguém. Queria ser eu próprio mas ao mesmo tempo tinha de ser um deles. Tinha tudo mas ao mesmo tempo não tinha nada. Sentia o vazio tipico de quem não sabe viver porque só corria em busca de algo que ainda hoje não sei o que era. 

 

Nasci numa familia com todo o sentido. Tive pai, mãe, avós, tios e irmãos. Tinha tudo para ser feliz mas no entanto lutava contra essa felicidade. Segui os passos que todos queriam que eu seguisse ou que fosse normal todos seguirem. Namorei, casei, tive filhos e vivi o que queria viver ou o que os outros queriam que eu vivesse, se queres que te diga não sei bem. Ri, chorei, amei ou talvez não. Fiz o que sempre quis fazer ou talvez tenha feito o que os outros queriam que eu fizesse.

 

Sonhei com tudo e com mais alguma coisa. Os sonhos confundiram-se com a realidade. Hoje não sei quem sou, não sei quem fui, não sei para onde vou porque na realidade não sei de onde venho.

 

Pediste que te contasse a história da minha vida. É isto que recordo de tudo o que vivi ou penso que vivi. O sonho misturou-se com a realidade e a realidade misturou-se com o sonho. Guardo na memória rostos, acontecimentos, gestos e palavras que penso que vivi. Guardo na memória locais, paisagens, vidas e passagens que penso que vi. Guardo na memória sons, musicas e conversas que penso que ouvi. Guardo na memória toques e  sensações que penso que senti. Hoje não sei quem sou porque como te disse a realidade misturou-se com o sonho.

 

A minha história é igual ao de tantos outros que comigo se cruzaram só que a deles é real a minha não sei. Vivo a incerteza do presente porque não sei qual é o meu passado. Vivo a incerteza de quem sou do que fui e do que quero ser. Se queres saber a verdade não sei se vivo ou se simplesmente sonho que um dia vivi.

 

Esta é a minha história aquela que tu pediste que te contasse. Mas eu avisei que não sou um contador de histórias. Posso não saber quem sou mas sei quem não sou e, não sou um contador de histórias. Não tem nexo pois não? Não faz sentido? Para mim também não porque como te disse a minha história misturou-se com o meu sonho. Para mim só vale o hoje porque amanhã já não sei se fui mesmo ou se sonhei que era.

 

E tu sabes quem não és?