Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Argumento

 

Embrulharam-se as roupas sem ordem numa emoção desordenada. “Não acredito, não acredito” diziam-me as minhas inseguranças. “Fantástico, fantástico” repetia-me um ego que de tão inchado mal se conseguia mover. Volto á minha adolescência e sinto-me com borboletas no estômago, muitas borboletas no estômago. Corro escadas a baixo. Lembro-me que em Londres deve estar frio. Volto a subir e procuro o meu blusão de cabedal. Gosto do meu blusão da sorte, lembro-me de pensar. Saio no silêncio da noite onde me apetece gritar aos sete ventos o que me está a acontecer. Lamentável, não me terem mandado uma limusina ou algo parecido. Apetece-me gritar num silêncio que me incomoda.

 

Interessante a forma como existem aqueles momentos em que parece que somos tomados por uma qualquer amnésia momentânea que nos impossibilita de ver mais além. Enquanto caminho pelos bastidores olho á volta e sorrio. Faço aquela cara que todos fazemos quando nos sentimos intimidados e talvez menos preparados para o que estamos a fazer. Caminho apressada. Cruzo-me com uns fulanos no corredor e pergunto-lhes onde fica a sala vip. Olham-me como se esperassem que lhes dissesse algo. Olham-me confundidos e indicam-me o caminho de forma hesitante. Agradeço a indicação numa euforia desenfreada sempre com a sensação que os conheço de algum lado. A minha tensão aumenta e o ritmo cardíaco cresce. Corro pelo corredor e perguntam-me se os vi, o que lhes disse, como me responderam... Paro. Estanco enquanto suores frios me percorrerem o corpo. Evidente. Claro que os conhecia, eram eles.

 

Repõe-se as certezas no segundo encontro. Rimo-nos do primeiro e admiram-se humildades. Reescreve-se um argumento porque o primeiro perdeu-se algures na distracção de quem vive distraída.

 

E tu como está o teu argumento de vida?

Faz as escolhas que te fazem sentido

A pedido de vários e depois de amadurecer a ideia resolvi aceder e criar um serviço de mentoring para a vida. Este  Programa de Mentoring assenta num relacionamento pessoal e de confiança estabelecido entre mim e aqueles que se atreverem.

 

Mentoring e coaching são duas actividades que estão relacionadas. A diferença está em que no Mentoring o profissional já pode dar conselhos ou soluções para resolução dos problemas específicos do teu dia-a-dia.

O mentoring é um processo que não tem um tempo estabelecido para o seu fim enquanto o coaching é um processo com princípio, meio e fim.

Porque muitas vezes queremos avançar e não sabemos por onde começar. Porque muitas vezes sentimo-nos demasiado sozinhos para seguirmos em frente.

Como podemos funcionar os dois?  Conta-me o que queres e definimos um plano. Seduz-te? Manda-me um  email a perguntar mais pormenores e não te esqueças de teres um dia fora de série. E, se a tua mente já te está a dizer que pode ser muito caro porque não te atreves e confirmas?

 

 

Eu? Continuo assim, muito mãe, muito mulher mas sobretudo eu mesma.

 

Se a minha vida fosse um livro

 

De repente pensei que se a minha vida fosse um livro não poderia ter um estilo muito definido. Penso que oscilaria ente o romance e o humor, entre o mistério e um qualquer diário de viagens, entre a bricolage e a psicologia entre o absurdo e  o considerado racional. Agora que penso nisso nunca poderia ser um livro de receitas culinárias, a não ser que me decidisse por algo como “o que nunca tentar na cozinha” ou mesmo “tentativas frustradas de um jantar perfeito”.

 

A capa seria branca teria de ser branca. Gosto do preto das palavras numa página em branco. Gosto de sentir que tenho espaço de manobra que posso ocupar este ou aquele espaço sem me sentir sufocada. Nem sei porque me estou a justificar. Gosto de branco e pronto.

 

Por entre palavras poderíamos ler histórias de sucesso e de derrota, ilusões que se transformaram em desilusões e amores que se transformaram em desamores. Entre lágrimas iriam surgir risos que, mais tarde seriam transformados em gargalhadas. Lições mais ou menos aprendidas e acções mais ou menos reflectidas. Certezas de vida opondo-se a incertezas momentâneas. Escolhas erradas e escolhas acertadas. Vida sentida porque só assim faria sentido.

 

Personagens mais ou menos periódicas e outras apenas de momento. Agitações constantes e recuperações de fôlego inconscientes. Palavras como Filhos, mãe, pai, mulher, letras, família, amigos, amores, comida, gatos seriam usadas frequentemente em frases onde existisse preocupação, amor, carinho, vontade e cuidado.

 

Páginas soltas e páginas que ninguém conseguiria arrancar. Páginas lidas e umas que nunca ninguém se atreveu a ler. Páginas em branco e páginas com excesso de letras.  Páginas onde o orgulho é evidente e outras onde não nos orgulhamos mas assumimos que estivemos e fizemos. Paginas amarelecidas pelo tempo onde as letras mal se lêem e páginas onde os acontecimentos se encontram tão vincados que serão possíveis de apagar. Erratas aqui e ali. Páginas inacabadas e frases soltas. Frases esborratadas por lágrimas e outras onde foram desenhados sorrisos.

 

Na dedicatória seriam nomeados os que me apoiaram, os que estiveram e que ficaram os que passaram e os que ainda hão-de vir. Seriam igualmente nomeados os que, sobretudo, me ouviram quando eu precisei de falar, os que me ofereceram bilhetes de incentivo para onde eu queria ir e os que nunca duvidaram de que conseguiria chegar.

 

No final gostava de poder escrever que gosto de ser quem sou, de ir para onde vou e de estar onde estou. No final, gostava de poder dizer que melhor do que viver é podermos dizer que vivemos sem medo do que os outros possam dizer mas sobretudo, sem medo de nos assumirmos como nós somos.

Nós e os nossos

 

Os nossos são os que estão, os que entram sem pedir licença, os que instintivamente se dirigem ao nosso armário e retiram o que necessitam sem nunca deixar de falar, são os que nos alugam a orelha durante horas, os que se esqueçam do nosso aniversário e quando se lembram desfazem-se em risadas em vez de se desfazerem em desculpas.

 

Os nossos são os que não se ofendem se não nos apetecer estar, são os que não cobram favores, são os que se surpreendem sem nunca condenar, são os que nos percebem , são os que estão sem precisar de estar, são os que não se deixam levar, são os que confiam sem desconfiar.

 

Os nossos são aqueles que nos aplaudem no voo, os que nos ajudam com a bagagem, os que se despedem na partida e os que nos esperam na chegada.

 

 

E tu como geres os nossos no teu eu?

 

 

Os dois vendedores

"Os dois vendedores se encontraram em uma happy hour e desandaram a falar sobre suas experiências e seus resultados. Os dois trabalhavam em empresas concorrentes e vendiam produtos similares, mas era evidente a diferença entre eles. Enquanto um tinha o aspecto de um vencedor, o outro era a crise em pessoa. Disse o primeiro:

— Não posso me queixar. As vendas vão de vento em popa. Hoje mesmo já atingi a meta do mês, e ainda nem estamos no dia 20. — Mas, também, com um portfólio desses, até eu. Você tem mais variedade de produtos para oferecer e um prazo de entrega mais acelerado.

O garçom serviu a segunda rodada de chope enquanto eles comparavam a lista de produtos e concluíam que na verdade elas eram muito parecidas. Mesmo assim a diferença das vendas de ambos era gritante.

— O segundo semestre costuma ser excepcional, e o primeiro não fica muito atrás. Eu praticamente consegui manter a regularidade dos resultados nos últimos 12 meses.  — Mas, também, com um território desses, até eu.

Antes mesmo do terceiro chope ficou claro que, apesar de os territórios em que trabalhavam serem diferentes, eles eram equivalentes em potencial de consumo.

— E o melhor é que as perspectivas para o próximo ano são excelentes em função dos novos lançamentos.  — Mas, também, com uma empresa como a sua, até eu.

O quarto chope chegou junto com a perda de paciência do vendedor vencedor:

— Olha, eu não quero ser chato, mas você fica atribuindo meus resultados ao portfólio, ao território, à minha empresa... Será que você não percebe que o que faz a diferença é a maneira como você encara seu trabalho? O negócio é levantar cedo, planejar o dia, bater perna, construir uma boa rede de clientes, entender a necessidade deles, manter o cadastro atualizado. É assim que se conseguem bons resultados: com preparo, trabalho e otimismo. Ficar procurando desculpas não leva a nada, colega. Mude seu comportamento e você mudará seus resultados.

O vendedor queixoso arregalou os olhos, tentou dizer algo, não conseguiu, então tomou mais um gole de seu chope. Quando finalmente falou, foi como se tivesse feito uma grande descoberta:

— Mas, também, com uma atitude dessas, até eu."

Autor: Desconhecido

Realiza os teus sonhos

A pedido de vários e depois de amadurecer a ideia resolvi aceder e criar um serviço de mentoring para a vida. Este  Programa de Mentoring assenta num relacionamento pessoal e de confiança estabelecido entre mim e aqueles que se atreverem.

 

Mentoring e coaching são duas actividades que estão relacionadas. A diferença está em que no Mentoring o profissional já pode dar conselhos ou soluções para resolução dos problemas específicos do teu dia-a-dia.

O mentoring é um processo que não tem um tempo estabelecido para o seu fim enquanto o coaching é um processo com princípio, meio e fim.

Porque muitas vezes queremos avançar e não sabemos por onde começar. Porque muitas vezes sentimo-nos demasiado sozinhos para seguirmos em frente.

Como podemos funcionar os dois?  Conta-me o que queres e definimos um plano. Seduz-te? Manda-me um  email a perguntar mais pormenores e não te esqueças de teres um dia fora de série. E, se a tua mente já te está a dizer que pode ser muito caro porque não te atreves e confirmas?

 

 

Eu? Continuo assim, muito mãe, muito mulher mas sobretudo eu mesma.

Cor da Vida

Gosto de cor de vida e cor na vida. Gosto de saber que vivo de acordo com as regras do arco-íris em vez de viver num qualquer canto preto e branco. Agora que penso nisso começo a pensar que devíamos todos nascer com semáforos incorporados. E antes que comece tudo a achar ridículo o que estão a ler deixem-me desenvolver. Este é o bem da escrita aqui ninguém nos interrompe podem não continuar a ler mas pelo menos ninguém nos impede de continuar o nosso raciocínio. Dizia eu ou melhor escrevia eu que devíamos nascer com semáforo incorporado não só pela beleza da cor, pela alternância de tons mas também pelo significado das mesmas. Devíamos ter semáforos que nos impedissem de seguir em frente quando devíamos parar. Que nos deviam impelir para um futuro brilhante quando insistimos em hesitar. Que nos alertassem para caminharmos mais ou menos devagar consoante os perigos ou dificuldades.

 

Maria dos Anjos fazia parte daquelas mulheres frequentemente designadas como interessantes. Para mim era uma mulher bonita que se cuidava de uma forma muito própria, para os outros limitava-se a ser apenas uma mulher interessante. Recordo-me do rosto bem definido, pele clara e grandes olhos negros que sempre que nos serviam riam-se sem ser necessário mover um músculo sequer do rosto. Os olhos falavam num silêncio onde muitas vezes me pareceu que imperava a tristeza ou talvez o tédio. Era isso mesmo que me fazia pensar naquela mulher como sendo diferente das com que eu me tinha cruzado. Não gosto de cabelos curtos mas a ela este penteado ficava-lhe bem. Não gosto de lábios pintados de vermelho mas não a imagino sem eles assim. O corpo vestia-se sempre de uma forma cuidada alternando entre o sensual e o maternal. Sempre a vi de cores claras e sempre pensei que a cor do exterior contrastava com a tristeza interior. Mulher sem duvida trabalhadora, admirada por uns e invejada por outros. Discreta, atenta onde a agitação interior era abafada por uma serenidade aparente.

 

Engravidara cedo do primeiro namorado que tivera, para trás ficou o sonho de ser médica e rumar a outros destinos. Um dia sonhara andar por terras distantes a mudar o mundo e a salvar aqueles que dela precisassem. Todos os sonhos de voluntarismo e altruísmo foram esmagados por uns momentos de prazer vividos atrás da igreja. Seguiu-se a reposição da honra por parte do João dos Camiões rapaz de muitos princípios mas pouca visão no futuro. Depois veio o nascimento do Joãozinho, a morte do seus pais e a necessidade de continuar à frente de um negócio que não a realizava mas que pagava as contas e a deixava numa posição económica confortável.

 

Passaram 10 anos desde a última vez que aqui estive. Tirando o pormenor da cor da parede que passou de laranja para branco e as cadeiras da esplanada que deixaram de ser vermelhas para serem daquele amarelo que fere a vista a qualquer ser humano que ouse olhá-las sem qualquer protecção, está tudo na mesma. O rosto de Maria dos Anjos foi substituído pelo rosto de Joãozinho cujo diminutivo não faz qualquer sentido neste momento. Calculo que tenha uns 20 anos, os olhos são os da mãe mas os dele são mais expressivos de alegria do que os dela alguma vez foram, o nariz e a tez é a do pai. Consigo compará-los porque este está ali sentado a um canto com rosto enrugado e postura de derrota. De facto só damos valor ao que temos quando sentimos que o vamos perder.

 

Acabaram de me contar que Maria dos Anjos fugiu há uns 6 meses. Acabaram-me de me contar que Maria dos Anjos se perdeu de amores por um turista britânico que tinha estado aqui na aldeia uns tempos de férias. Acabaram de me contar que foi uma surpresa para todos apesar da honestidade da mesma. Acabaram de me contar que depois de uma conversa com o marido e outra com o filho seguiu em frente certa do caminho para onde seguia. Acabaram de me contar que esta semana chegaram noticias e que Maria dos Anjos anda por terras de África. O sentimento por ela continua o mesmo, uns admiram-na em silêncio, outros invejam-na nas palavras de censura.

 

Eu, aqui sentado brindo a ela num silêncio de admiração. Recordo-a a passear pelas mesas, recordo o sorriso com vontade de chorar, e a simpatia forçada pela necessidade. Recordo o contentamento descontente de um caminho que foi forçada a escolher. Recordo o brilho no olhar quando conversávamos sobre este ou aquele local. Recordo as perguntas e os suspiros de quem anseia por algo. Eu, aqui sentado brindo a uma mulher que não hesitou em seguir em frente mesmo que no semáforo social brilhasse o vermelho. Eu, aqui sentado brindo a um rosto cujo semáforo emocional a fez seguir em frente num verde cheio de esperança. Eu, aqui sentado só não brindo aos meus medos aos que um dia quando se aperceberam do meu fascínio por ela acenderam o sinal amarelo que me fez ficar ali cheio de cuidados e anseios.

 

Gosto da cor da vida … daquela que nos faz caminhar por caminhos coloridos com ou sem semáforos ligados com ou sem avisos mais ou menos esperados.

 

E tu? como tens pintado a tua tela?

Porque quando partilhas tudo fica muito mais fácil

Um consultório prático onde se fala de assuntos comuns, pessoas comuns e vidas comuns. Partilha, pergunta e dá o mote para a crónica seguinte ( martaleal_lifecoach@sapo.pt). A tua partilha nunca será divulgada, a não ser que assim o desejes,  mas o teu desafio e o teu exemplo podem ser o tema da próxima crónica, até porque as tuas experiencias podem ser a motivação de outros.

 

Desde já o meu agradecimento aos que tem escrito e aos que me inspiram diariamente.

 

 

Desafios

 

"No futebol americano, há um momento em que o jogador tem de dar um chute na bola.

No circuito universitário havia, há alguns anos, um rapaz que era o recordista de chute. Ninguém chutava tão forte quanto ele.

O importante nessa história era que o pé de que ele se utilizava para conseguir tal façanha, não tinha nenhum dos dedos!

Quando descobriram isso, fizeram inúmeras entrevistas com ele, e a primeira pergunta era sempre do tipo:

"Como você, tendo tal deficiência, consegue fazer uma coisa que ninguém mais consegue?"

E ele, orgulhosamente, sempre respondia:

"Porque eu cresci ouvindo meu pai dizer: ‘Encare suas deficiências e seus problemas como desafios, nunca como desculpas"

Autor: desconhecido

 

Recordações escondidas

 

Não gosto de limpar a seco tal como não gosto que me falem a seco. Não gosto de espanadores fico sempre com a sensação de que o pó vagueia novamente pela casa tal e qual palavras que nos magoam vagueiam pela nossa mente por tempo indeterminado. Não gosto de certos cheiros de produtos de limpeza fico sempre com a sensação que aquelas essências foram misturadas sem cuidado e em vez de uma fragrância agradável temos tão e somente uma mentira velada por cheiros doces, enjoativos e nauseantes. Não gosto do toque do pano do pó tradicional arrepia-me tal como me arrepia morder um pêssego com pele. Gosto, contudo, do cheiro do produto que trata as madeiras. Uso e abuso dele mais pelo prazer do cheiro do que pelo prazer de limpar. Gosto de aspirar e sempre que o faço penso que devia aspirar problemas da mesma forma que aspiro o pó.

 

Sempre gostei de arrumar as ideias do mesmo modo que arrumo o nosso roupeiro das recordações. Não gosto de limpar mas gosto de encontrar tudo no lugar. Aqui encontramos passado, presente e até um futuro programado que nunca chegou a ser vivido. Lembras-te? Das viagens, dos projectos de casa e até dos filhos que íamos ter. Encontro aqui tudo seja em forma de letras, de imagens, de flores secas ou objectos que sozinhos parecem não ter nexo mas quando ligados a uma recordação fazem todo o sentido.

 

Há anos que faço o mesmo ritual prendo o meu cabelo já grisalho com aquela fita branca de que tanto gostavas, coloco aquele meu creme hidratante para evitar que a minha pele sofra agressões de qualquer tipo de pó. Sabes que continuo vaidosa? Ensinaste-me isso numa altura em que a minha auto estima simplesmente não existia. Ensinaste-me não só a gostar de mim mesma mas sobretudo a aceitar-me como sou. Hoje aceito todas as minhas rugas mas não consigo de deixar de pensar como seria aqui contigo, o que me dirias quando me lamentasse, a forma como me passarias a mão pelo rosto e me dirias que para ti continuaria linda. Coloco sempre aquela camisola azul escura que comprámos quando fomos pela primeira vez a Londres. Londres, perdi a conta das vezes que por lá passeámos, os espectáculos a que assistimos ou mesmo a insistência que tinhas em que fossemos para lá viver. Agora que penso nisso nem sei porque não o fizemos. As velhas calças pretas de algodão não resistiram a tantos anos de limpezas e lavagens. Até tu já implicavas que as vestisse. Recordaste da quantidade de vezes que me disseste para as deitar fora? Hoje tenho umas novas azuis escuras só para ser diferente.

 

Já não tenho a mobilidade que tinha há uns anos. Deixei de me conseguir sentar no chão com as pernas dobradas à chinês. Ainda me rio do teu ar sempre que eu o fazia. Hoje limito-me a ajoelhar-me enquanto retiro todas as caixas e as limpo uma a uma. Sabes que deixo sempre para o fim a nossa caixa? A que contem tudo o que fizemos, o que fomos e que escrevemos um ao outro? Sim, é verdade. Depois da limpeza feita pego na nossa caixa despejo-a e, revivo todo o que fomos e tudo o que vivemos. Sabes que continuei a escrever-te? Todos os anos te escrevo uma carta depois de recordar e de reviver momentos, os nossos momentos aqueles que recordo como se fosse hoje. Faço isso no nosso cadeirão, aquele que mandámos fazer à medida para que ficássemos os dois bem juntinhos. Deixavas que lesse para ti enquanto as tuas mãos me afagavam o cabelo. Por vezes, deixavas-te ir para o mundo dos sonhos embalado pela minha voz e isso não me incomodava porque sabia que estavas ali comigo e para mim. Afinal não conseguimos cumprir a promessa de envelhecermos juntos, envelhecemos até a vida nos permitir que o fizéssemos. Não gosto desta parte, não gosto da parte em que recordo a tua morte. Mas para recordar o que vivemos tenho de recordar porque não continuámos a fazê-lo.

 

Volto a arrumar a nossa caixa no local que lhe está reservado. Fecho a porta do roupeiro das recordações e inspiro o ar a lavado que por ali se sente. Gosto do cheiro a lavado, gosto da imagem que fica, gosto da sensação de dever cumprido. Nestes dias limpam-se objectos e lavam-se almas. Gosto do que a minha alma sente, gosto … de voltar a sentir o que um dia senti. Sinto-te ali comigo como se nunca tivesses partido. Gosto apenas …

 

E tu como vives o teu passado?