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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

E quando alguém fica com a nossa vida

 

Olho à volta sinto que todos andam a uma velocidade superior à minha. Quero fugir quero desaparecer mas não consigo mover-me. Ouço alguém perguntar-me se estou bem. Abano a cabeça em sinal de assentimento. Sinto-me noutra dimensão, os meus pensamentos fogem-me acelerados. Não quero nem posso pensar mais.

 

Paro. Não sei onde estou ou como vim aqui parar. O meu corpo anda sem sentido porque os meus pensamentos se encontram perdidos. Não consigo sequer chorar. Não sei o que sinto porque não sinto nada. Quero um ombro para chorar, quero uns braços que me abracem e me digam simplesmente “vai passar”

 

Olho, reconheço este sítio. Foi onde um dia gritaste para que todos ouvissem que me amavas. Sento-me no mesmo local e não aguento mais. Choro não sei por quanto tempo. Começo lentamente a deixar a dormência em que fiquei. Sinto dor, sinto raiva. Sinto o que nunca tinha sentido. As esperanças desapareceram e com ela a vontade de viver e de rir. Agora sinto tristeza e dor.

Queria fechar os olhos e só acordar quando tudo passasse. Tento mas não consigo, Era tão fácil se assim fosse.

 

Recordo tudo o que tivemos. Revivo emoções, sentimentos, desejos e paixão. Acordo para a realidade. Sinto-me dorida porque agora duvido se o que vivi foi verdadeiro. Não posso e não quero recordar mais. Dói muito dói demais.

 

Tomo uma decisão recuso-me a amar novamente. Não volto a sofrer por ninguém.”

 

Enquanto lia estas linhas Joana revivia tudo o que um dia tinha sofrido. O mau estar, a dor e, até as lágrimas voltaram. Encontrara este pequeno texto por acaso. Já se tinha esquecido que um dia o tinha escrito e mal se recordava do rosto de quem a tinha feito sentir assim. Engraçado as emoções voltarem todas ao de cima e as imagens não.

 

Fora naquela hora, naquele momento que decidira nunca mais voltar a amar. Hoje sabia que tinha sido uma decisão errada mas fora a que sentira há uns anos atrás. Hoje apetecia-lhe voltar a viver de forma menos sarcástica e azeda. Hoje gostava que alguém já sem rosto na sua memória não a tivesse feito alterar o meu modo de ser e de viver.

 

O tempo não se recupera. Os momentos não se recuperam podem-se reviver e recordar mas não se recuperam e hoje Joana hoje tinha vontade de voltar a trás mudar de decisões e, alterar o seu rumo.

 

Tinha consciência de que desde esse dia se tinha afastado de tudo o que a podia magoar. Deixara de viver com medo. Vivia rodeada de fantasmas de vida que a impediram de viver. Deixara de acreditar e ao mesmo tempo deixara de viver. Agora percebia que desde aquele dia que deixou de ser ela própria para ser aquilo em que deixara que a transformassem.

 

Hoje ao encontrar aquele texto seu percebera que já mal se recordava de quem lhe fizera mal. Hoje percebera que caíra na pior armadilha em que alguém pode cair. O permitir que alguém nos mude só porque nos fez perder as esperanças. O permitir que alguém fique com a nossa vida.