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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Um dia vou ser feliz

 

- E, já agora vê de desta vez acertas e não te esqueces do que te pedi. Santa paciência todos os dias a mesma coisa e tu pareces que não me ouves. Não ouves ou não queres ouvir.

 

António fechou a porta atrás de si mas ainda se apercebeu que a sua mulher continuara a falar. Sentia-se cansado de tanta lamúria, tanta cobrança e tanta humilhação. Sentia saudades de uma palavra de incentivo, de uma palavra de carinho ou mesmo de uma simples conversa onde não existissem acusações ou desconfianças.

 

Apaixonara-se por ela ao primeiro olhar. E, o engraçado que o que o atraiu nela foi o que anos mais tarde destruiu o amor. O ar seguro, a auto-confiança e a capacidade de decisão. O casamento aconteceu rapidamente fora ela que lho propo-ra  e ele aceitou sem sequer pensar. Nunca soubera se ela o amara como ele um dia a amou. Ela nunca lho dissera ele nunca lhe pedira para dizer.

 

Os anos sucederam-se em nascimentos de filhos, trocas de fraldas, escolas, trabalhos de casa e outro sem numero de actividades. O diálogo desapareceu com os anos. As discussões aumentavam ou melhor os monólogos porque António já nem sequer respondia.

 

Lembrava-se agora da primeira vez em que tentara apimentar o seu casamento. Fora aconselhado pelo seu melhor amigo. Amizade que mantinha em segredo porque Maria não podia sequer ouvir falar nela. Marcou um fim de semana fora e comprou-lhe um ramo de flores. Quando chegou a casa feliz e contente o seu mundo desmoronou-se. Maria não só recusou o fim de semana como também o acusou de ter outra e por isso mesmo a estar a querer mimar. "Deixa-te dessas parvoices homem que já não tens idade para isso" dissera-lhe ela.

 

Hoje viva encurralado numa vida que o fazia cada vez mais infeliz. Os filhos mal paravam em casa. Maria preocupava-se com tudo menos com o que ele sentia ou mesmo o que ele queria. Por vezes sentia que ela o desprezava. Por vezes sentia que a odiava. Outras vezes pensava que todos deviam viver assim e que tanta duvida era fruto da sua cabeça.

 

Por vezes olhava-a e procurava a mulher por quem o dia se tinha apaixonado. Hoje olhava-a e procurava aquela por quem se anulou. Ela parecia alheia a ele. Vivia demasiado preocupada com a vida dos outros, a vida de casa e tudo o que lhe interessava. Agora que pensava nisso tinha a certeza de que nunca tinha tido uma palavra de incentivo. Uma palavra de ânimo ou mesmo um gesto de carinho.

 

António era um romântico que criou um mundo dele. A sua imaginação voava para fora de si rumo a outra vida e a outras situações. Sonhava com a partilha, o companheirismo e com a ilusão de um dia poder ser amado. Sonhava cada vez mais com aquilo que sempre lhe fizera falta. Vivia uma vida que não era a sua porque deixara que um dia alguém tomasse conta dela.

 

Era cada vez mais frequente dar consigo a fazer planos de acabar com aquilo. De como iria fazer, o que diria aos filhos, onde iria viver e o que lhe iria dizer a ela. Visualizava as situações, ensaiava diálogos e enchia-se de coragem. Uma vez ainda tentara mas ela nem sequer o deixara terminar "olha o velho gaiteiro andas com alguma debaixo de olho" fora a resposta que obtivera. Nesse dia odiara-a como nunca a tinha odiado. Mas mais uma vez deixara-se ficar.

 

E, todos os dias sempre que saía de casa pensava que nunca mais ia voltar mas todos os dias faltava-lhe a coragem e a força necessárias.

 

- Um dia vou ser feliz - murmurou ele enquanto descia as escadas do prédio rumo ao carro - um dia vou conseguir.

 

 
E tu quando te decides a ser feliz?