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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

E quando o céu se atreve a chorar

Conta-se que só digo o que penso mas a verdade é que penso mais o que não digo. Complicados os dois em um ou o um de dois. Gosto do som da chuva a bater no asfalto. O cheiro a terra molhada transporta-me para outros tempos. As estrelas brincam às escondidas entre as nuvens enquanto iluminam o meu passeio. Recordo-me do último desejo que pedi a uma estrela cadente “quero uma estrela só para mim”. Interessante o que conseguimos apenas porque acreditamos. Caminho para onde quero ir mas a minha memória recua para onde quero estar. Memória, pensamento, vontade e dever.

 

Sempre gostei do ar frio das noites de Inverno. Enquanto caminho ouço as vozes de quem habita nas casas pelas quais vou passando. Numas casas grita-se, noutras fala-se e noutras ouvem-se risos. Uso da minha criatividade para imaginar o que se passa nesta ou naquela. Ouço ao fundo lengas lengas de crianças e na minha imaginação começa a ecoar “pico-pico saranico quem te deu tamanho bico”. Recordo a tia e as horas que passámos juntas a repetir as mesmas palavras. Recordo o tio e a tia e a paixão que os uniu. Foram eles que me fizeram acreditar no amor.

 

Agradáveis estes dias em que a chuva cai de forma ritmada. Salto de pensamento em pensamento mas invariavelmente volto á minha infância e ao que esta época me faz sentir. Suspiro de saudade imensa e de uma vontade que ficou suspensa no tempo.