Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Mulher minha faz o que eu quero

images (4).jpg

 

Não era bonita nem feia. Contam-me os que se cruzaram com ela que tinha uma graça especial quase imperceptível aos olhos dos mais desatentos. Afinal de contas, todos temos algo especial para quem está atento a nós.

Cresceu num mundo de princesas e finais felizes. Foi princesa, foi guerreira, foi cavaleira e há quem diga que havia dias em que era fada. Foi tudo o que se permitiu sonhar. Sonhou que seria possível ser uma mulher de sucesso, a melhor mãe do mundo e a melhor esposa de sempre. Sonhou que um dia ia mudar o mundo. Sabia que sim, sabia que conseguia porque sabia do que era capaz. Saltitou entre queres e poderes, entre seres e teres, entre ilusões e desilusões fruto de uma adolescência onde crescer é tudo menos fácil.

Cresceu. Cresceu da mesma forma que todos os caros leitores crescem com medos, com dúvidas, com certezas e com vontades. Percebe-se que em certos momentos cresceu com pressa de crescer.

Casa. Casa não com o homem ideal mas com o homem por quem se apaixonou. Afinal de contas é o amor que deve comandar a vida não é verdade? O que seria o homem ideal se não existisse amor. Um dia, algures no tempo percebe que não se reconhece, perdeu-se dos sonhos, das fadas e das princesas e de si, sobretudo de si mesma. Um dia percebe que se enjaulada em frases como “mulher minha não faz, não vai, não veste” como se o seu querer não tivesse qualquer valor, como se o seu ser fosse menos que nada.

Não se reconhece no medo, na vergonha, nas chantagens, nas ameaças, nas humilhações, nas agressões e nas lágrimas. Sobretudo nas lágrimas que quase por magia foram substituindo o seu sorriso. Não se reconhece na propriedade privada de um ser que a trata como dono onde o seu querer e o seu estar são submetidos às decisões do seu amo e senhor.

Não se reconhece naqueles que estando perto de assobiam para o lado, nos que lhe dizem que é mesmo assim e que na vida há que fazer sacrifícios, nos que assistem e não defendem, nos que apontam e julgam, nos que se estivessem no lugar dela fariam diferente.

Eu também não me reconheço nos que falam sem saber e nos que julgam sem actuar. Eu também não me reconheço num encolher de ombros constantes face a uma situação que precisa de ser alterada.

Eu não me reconheço numa passividade que permite a humilhação e a agressão. Deve ser por isso eu tenho um sonho de ajudar outras mulheres a perceberem que ninguém tem o direito das maltratar e das humilhar. Que ninguém tem o direito de as considerar propriedade privada.

Eu tenho o sonho de ajudar cada vez mais mulheres a perceberem que existe vida para além da que têm.

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.