Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Quando o azar se transforma em sorte

 

Madalena sentou-se na cadeira da esplanada onde há vinte anos tinha por hábito ir.  Pousou o livro em cima da mesa verde e olhou em redor. Nada ou quase tinha mudado. Revivera aquela imagem vezes sem conta mas do que mais tinha sentido saudades era do cheiro a maresia. Aquele cheiro que tantas vezes a tinha acalmado mas que com o tempo quase tinha esquecido.

 

Observou as pessoas que começavam a chegar à praia, sorriu ao ver a forma como as crianças brincavam e corriam em direcção ao mar. Também elas tantas vezes tinha estado naquela situação naquele mesmo areal. Recordou os inúmeros castelos de areia que fez, as correrias pela praia atrás dos filhos e a ansiedade que sentia sempre que os via afastarem-se.

 

- Os velhos hábitos nunca se perdem, posso sentar-me?

 

Os anos tinham passado por ele mas era capaz de o reconhecer em qualquer lugar.Ali estava ele o homem que um dia a tinha feito mudar o rumo da sua vida. O homem que a tinha feito afastar de tudo e recomeçar de novo afastada de quase tudo o que gostava.

 

- Mas claro que podes. Como estás?

- Mais velho mas isso já deves ter reparado.

- Estamos os dois meu caro.

- Mas linda como sempre

- E tu não perdeste o charme

- Não me digas que costumas vir aqui muitas vezes. Se o disseres atiro-me a mar.

- Não vinha cá há cerca de vinte anos. Hoje resolvi voltar.

- O que é que te aconteceu? Procurei-te por todo o lado.

- Queres que comece por onde?

- Por onde quiseres.

 

Continuava cuidado e gentil. A cara enrrugada não perdera a expressão e os olhos continuavam expressivos. Ao longo do tempo a imagem que tinha dele foi desaparecendo bem como todos os sentimentos que a acompanhavam. Tinha perdido não só a referência fisica e com ela a referência emocional. Deu consigo a pensar que de facto o tempo cura tudo.

- Então? encomendo já o jantar?

- Desculpa?

- Estás a demorar tanto tempo a começar que acho que vamos ficar aqui o dia todo.

- É assim tão importante para ti?

- Perdi-te há mais de vinte anos e procurei-te por toda a parte é natural que esteja curioso.

- Depois de me teres ligado a dizer que não podias continuar. Falei com a Raquel. lembro-me que chorava tanto que ela largou tudo para vir ter comigo. Falei-lhe do que tinha acontecido e repeti vezes sem conta que só queria desaparecer. A Raquel esteve sempre lá lembraste dela?

- Claro que me lembro vocês eram inseparáveis.

- No dia seguinte a Raquel, que sempre se mexeu bem em todo lado, trouxe-me uma documentação para trabalhar numa embaixada. Estavam a necessitar de uma pessoa e ela lembrou-se de mim. As aulas tinham terminado e era mais fácil tratar de tudo. O unico senão era que me tinha de mudar de armas e bagagens para a Grécia.

- Grécia?

- Sim. E deve ter sido a decisão mais rápida que tomei em toda a minha vida.  Em dois meses tinha a documentação pronta, as trasferências dos miudos efectuadas e a casa posta à venda.

- Eu sei. Passado 3 meses arrependi-me da minha decisão e procurei-te por todo o lado. Cheguei até a falar com a Raquel mas ela foi intransigente. Disse-me sempre que não sabia de nada e para eu a deixar em paz. Tentei faze-la ver que te amava mas de nada valeu.

- Ela contou-me.

- Contou-te?

- O ano passado mas já lá chegamos.

- Mudei-me de armas e bagagens para Atenas. Comigo foram dois grupos um que ia trabalhar para a Embaixada e outro que ia formar uma empresa. Lembro-me que a minha diferença para eles era que eles iam abraçar um projecto novo eu ía na tentativa de fugir de um projecto antigo. Quando chegámos tinhamos uma casa à nossa espera e os miudos já estavam inscritos nas escolas. O inicio foi dificil sentia-me longe de tudo e de todos apesar de ter sido sempre muito apoiada. E, depois os miudos sempre com tanta actividade obrigavam-me a ter de contactar com muita gente.

- Sabes que nunca mais me apaixonei porn ninguém?

- Eu não posso dizer o mesmo. Voltei a apaixonar-me e a casar. Conheci o Manuel no voo. Os miudos adormeceram na sala de embarque e ele ajudou-me a embarcar. Mais tarde contou-me que conhecia a Raquel e que ela lhe tinha pedido para tomar conta de nós. Foi das pessoas que mais me apoiou e ao fim de dois anos descobri quen estava completamente apaixonada por ele.

- E os miudos?

- Os miudos adaptaram-se rapidamente. De inicio chegaram-me a perguntar se ias ter connosco. Nem sabes o que essas palavras me magoavam. Mas com o tempo também eles foram esquecendo. Hoje estão ambos formados e casados. O joão está agora nos Estados Unidos a fazer um doutoramento. A Alice é médica e casou o ano passado.

- Também me esqueceste?

- Os grandes amores não se esquecem. Podem acabar mas não se esquecem e acho que foi isso que me aconteceu. Sabes que no dia do meu casamento dei comigo a agradecer-te por teres tomado a decisão que tomaste?

- Como assim?

- Foi a tua decisão que me fez tomar outro caminho e se assim não fosse não tinha vivido os anos maravilhosos que vivi. Até ao ano passado.

- Então?

- O Manuel sofreu um acidente de viação e acabou por morrer na sala de cirurgia.

- Lamento.

- Também eu. E, foi justamente depois da morte dele que a Raquel foi ter comigo e me contou que tinhas procurado logo depois de ter ido para a Grécia. Pediu-me perdão por não me ter contado mas que não me queria ver a sofrer mais. Nesse dia choramos abraçadas uma à outra eu não sei se por desespero ou se por agradecimento. Afinal, nunca vou saber qual teria sido a minha decisão se ela me tivesse contado há vinte anos.

- Talvez tivessemos ficado juntos.

- Não sei. Eu estava muito magoada e amargurada. A mágoa destrói qualquer tipo de relação.

- E, agora o destino juntou-nos outra vez.

- Sabes que não acredito muito nessas coisas do destino. Quem nos juntou foram as nossas decisões. Tal como foram elas que nos afastaram.

- Eras uma romântica na altura.

- E continuei a ser mas isso não implica que acredite no destino.

- E o que chamas ao facto de nos encontrarmos aqui?

- Hábitos. Eu tinha o hábito de vir aqui e tu também o ganhas-te.

- És feliz?

- Pode-se dizer que sim. Vive muito feliz durante todos estes anos e, agora que o Manuel morreu sinto-me feliz cada vez que o recordo. E tu?

- Eu nunca me perdoei ter-te deixado.

- Acredites ou não. Foi o melhor que me podias ter feito

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.