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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Risque-se o amor das letras

 

Risque-se o amor das letras. Apague-se príncipes e princesas. Palavras de romance estão proibidas mas a história vai continuar. Pedem-nos palavras novas, ideias novas e vontades novas. Equacionam-se temas possíveis e sorrimos na primeira reflexão. Oxalá fosse tão fácil definir tudo o resto. Fale-se então de tudo menos de amor.

 

Sobe a rua do Carmo. Vê o reflexo numa montra e distrai-se com os artistas de rua. Sorri enquanto actuam. Uns cêntimos só uns cêntimos ouve pedir-lhe. Abana a cabeça num não impensado e desarma-se com um “muito obrigada que só esse sorriso já valeu a pena”. Recorda-se de Portobello Market em especial de um artista que adorava ouvir tocar. Promete-se lá voltar. Ajeita o cabelo que teima em soltar-se e sente o cheiro de castanhas a assar.

 

Se se falasse de amor estava na hora de um ele entrar. Certamente cruzariam olhares e fixar-se-iam num flirt mais ou menos velado. Mas não. Aqui fala-se de uma ela que passeia pelas ruas de Lisboa. Ela e os seus pensamentos.

 

Pensa na quantidade de pessoas à sua volta. Recorda-se dos tempos em que fazia aquele caminho todos os dias. Interessante. Veio-lhe à memória o incêndio do Chiado. Olha à volta e apercebe-se do que foi feito. Aprecia as floreiras nas janelas. Gosta do Chiado. Pensando bem sempre gostou do Chiado. Senta-se na esplanada da Brasileira lado a lado com Fernando Pessoa. Pensa nos seus heterónimos e pergunta-se o porquê de não lhes terem erguido, também a eles, uma estátua.

 

Pede o café da praxe. Pousa o livro na cadeira do lado. Não percebe porque continua a trazer um livro se o que lhe interessa verdadeiramente são as pessoas. Gosta de observar as pessoas. Viaja novamente. Desta feita estamos na Praça da Cidade Velha em Praga. Perde-se em imagens soltas. Denunciam-na as risadas e regressa aos olhares dos que estão sentados por perto.

 

Encanta-se com os que tocam á sua frente. Abana o corpo ao ritmo dos instrumentos. Sorri mais uma vez e perde-se no gesto ao lado. Estranham-se gestos diferentes. Pensa-se em sexos e em géneros e recua até ao Paraíso. Como seria o dia-a-dia de Eva e de Adão? Pergunta-se.

 

Faça-se um parêntese e acalmem-se os leitores. Não se fala de romance mas a história honra a moral e os bons costumes. Adão e Eva estão cobertos por uma parra. A única orgia que poderá existir é a de letras. Orgasmos e clímax apenas nas ideias. Avancemos então para a nossa protagonista que se bem se lembram estava entre o Chiado e o Paraíso. Reconhece a importância das lutas pela igualdade das mulheres. Mas derrete-se num gesto cavalheiro. Revolta-se contra as desigualdades de oportunidades. No entanto, não abdica de um deixar passar na frente. Indigna-se com diferenças salariais. Não resiste a um puxar de cadeira. Sente-se tonta com tais pensamentos alternados. Chama o empregado e pede-lhe uma água.

 

Observa os que caminham. Apressam-se uns e detêm-se outros. Falam-se línguas diferentes. Sobem e descem num vai e vem constante. Vê casais diferentes. Sorri na coragem aplaudindo a vontade. Esconde-se nos Prada. Mais fácil assim. Não gosta que a olhem porque não gosta que a leiam. Sempre foi assim mas não sabe se sempre assim será.

Cai a noite em Lisboa. Solta-se o vento de Janeiro. Perdeu-se no tempo de um dia sem tempo. Preocupam-na as diferenças de género mas resolve-se a esquecer a Anatomia, Biologia, Psicologia e afins. Caminha em direcção ao miradouro. Gosta da vista de cidade iluminada. Perde-se no postal vivo. Recua-se a outros tempos e suspiram-se todas as promessas que ficaram por cumprir.

 

Desce no passeio contrário ao que subiu. Abriga-se da chuva que teima em cair. Choca nos que se preparam para a noite de Lisboa e sente-se novamente adolescente. Pergunta-se, as vezes que terá caminhado por ali. Procura caras e situações. Fácil perder pessoas no nosso tempo mas mais fácil ainda manter amizades. Apressa-se na vontade de uns braços que a esperam para a abraçar. Perde-se na multidão que circula e ruma aquilo que prometemos não falar.

 

Gosto de desalinho mas quando é para seguir regras seguem-se regras. Pensando bem gosto do equilíbrio que os opostos me trazem. Satisfaz-me que já possa falar de amor.  De caminho juntemos ao amor a acção e vamos ver o que isto vai dar.

 

Perde-se na multidão que circula e ruma aquilo que prometemos não falar. Desce a Rua do Carmo apressada. Sente-se rejuvenescida numa tarde bem passada. Gosta de Lisboa mas para ser mais objectiva do que gosta mais é do cheiro a Lisboa. Enquanto caminha tem consciência que ao perder-se nos rostos dos outros se perdeu no tempo. Liga. Diz-se atrasada e diz que o quer. Derrete-se na resposta e sorri com aquele sorriso idiota de quem se sente apaixonado.

 

Soltam-se gemidos enquanto se sente prazer. Murmuram-se juras de amor sentidas. Entrega-se o corpo como se de sobrevivência se tratasse. Luta-se corpo a corpo e empata-se na vitória. Somos dois, somos um. Alterna-se entre risos e sorrisos. Desarrumam-se leitos e arrumam-se vontades. Fundem-se cheiros que se entranham na pele. Amam-se com desejo e Abraçam-se numa pausa sentida. Partilha-se numa cumplicidade indescritível e pede-se mais. Sempre mais. Despedem-se numa saudade antecipada.

 

Fiquemos por aqui no que respeita a sensualidade. Não queremos censura erótica nem tão pouco impedimentos de escrita. Saboreemos o que foi escrito e esperemos pelos próximos capítulos. Acabe-se por momentos com o romantismo e avance-se com a acção que o número de palavras está-se a esgotar.

 

(escrito por mim algures no tempo e no espaço)