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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

O dia em que a felicidade desapareceu

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Não me apercebi logo do que se estava a passar. Acordei normalmente preparado para o que eu pensava ser um dia normal. Reparei numa agitação fora do comum em todos os que se cruzavam comigo, pareciam mais ansiosos do que era costume, quase ia jurar que os notava mais perdidos. Olhavam uns para os outros como que a saberem de novidades. Os que eram olhados limitavam-se a encolher os ombros e a abanar a cabeça.

 

Foi então que percebi o que se passava. A felicidade tinha desaparecido. Pelo que entendi não se sabia há quanto tempo mas hoje alguém noticiara o seu desaparecimento. Durante semanas o caso foi notícia de abertura em todos os telejornais, manchete de todos os jornais e até capa de revistas. Todos perguntavam onde estaria, para onde teria ido e o que de facto tinha acontecido.

 

O mundo parou em torno de debates com os mais diversos especialistas, contrataram-se os mais prestigiados investigadores, seguiram-se até pistas dadas por médiuns e videntes. As teorias eram mais que muitas, uns que tinha sido raptada por conhecidos gangs liderados pela tristeza ou angústia, outros defendiam que tinha sido assassinada pelos lobies da cobiça e da inveja, outros que se tinha deixado levar na cantiga do desespero e do desânimo e se tinha suicidado.

 

Com o passar do tempo os dias tornaram-se cinzentos porque faltava alegria para os colorir. As flores continuavam cheias de cor mas ninguém as queria olhar. O Sol nascia e punha-se mas já ninguém olhava a sua beleza porque ninguém conseguia sentir nada que não fosse tristeza. As crianças continuavam a brincar na sua inocência mas nenhum adulto as acompanhava. Lembro-me de pensar que o mundo tinha parado. As pessoas cabisbaixas arrastavam-se num dia a dia sem sentido porque buscavam a felicidade. 

 

Depressa percebi o risco em que todos caímos já tínhamos perdido a Felicidade mas se continuássemos assim íamos também perder a Esperança. Tentei lutar contra isso tudo, continuei a olhar para o que estava á minha volta e a dar-lhe significado, tentei continuar a viver com uma felicidade que fosse minha mesmo que me visse rodeado de tristeza.

 

Um dia ao passear pela praia ao fim do dia encontrei-a. Hoje penso que só a encontrei porque não a procurava. É sempre assim com tudo se procuramos muito não encontramos se deixamos de procurar acaba por vir ter connosco. Olhei-a e não a reconheci. Estava vestida de tristeza, penteada como angústia e calçada de desânimo. Percebi que queria conversar, não estranhei o mundo estava demasiado preocupado consigo mesmo que deixara de falar com os outros.

Conversámos muito. Sobre tudo o que nos rodeava. Falamos do mar, do sol, da areia, das nuvens e até do vento que já se fazia sentir. Vi que os seus olhos começaram a brilhar, que a sua voz falava com paixão e que as suas mãos gesticulavam quase de forma a quererem agarrar o momento.

 

Olhei-a nos olhos e perguntei-lhe se era quem eu estava a pensar. Disse que sim que era. Perguntei-lhe o que tinha acontecido, quem a tinha feito desaparecer, porque não dizia que estava viva, porque é que vagueava naquela praia. Respondeu-me que ninguém a tinha feito desaparecer simplesmente tinha-se cansado. Tinha-se cansado de ser confundida com o que não era. Peço-lhe para me explicar. Sinto-me confuso não percebo o que sente e porque se sente assim.

 

E, foi então que me disse que era suposto ser simples e estar nas pequenas coisas da vida. Inicialmente as pessoas viam-na em todo o lado, numa flor, num sorriso, numa conversa, numa saída entre amigos, num por do sol, no mar, num afago de um animal. Mas com os tempos isso foi-se alterando as pessoas deixaram-na de a entender na sua essência. Confundiam-na com o ter. Achavam que estava no que tinham e não no que sentiam. Procuravam-na fora deles quando ela devia estar no seu interior. Sentia-se cansada, sentia-se triste porque não a entendiam por isso resolveu desistir. Disse-me que se tinha isolado naquela praia porque já ninguém precisava dela. Que nos últimos tempos se tinha cruzado com tantos e que ninguém a tinha reconhecido. Só eu.

 

Digo-lhe que não. Conto-lhe os acontecimentos dos últimos meses, digo-lhe que o mundo se uniu em torno do seu desaparecimento, conto-lhe que o mundo anseia pelo seu regresso, conto-lhe que o mundo já não é o que era. Ri-se, diz-me que sim que tenho razão de facto o mundo já não é o que era mas só porque a procura onde não existe., só porque a olha e não reconhece, só porque a tem e a negligencia, só porque a vê mas não a sente. Depois levanta-se, olha-me nos olhos e diz-me:

 

“Tu reconheceste-me porque existo em ti. Quanto aos que me contaste que me procuram não adianta terem-me sem me sentirem, não adianta procurarem-me se não souberem o que  procuram, não adianta quererem se não me souberem ver.”

Marta Leal

Contos de Encontros e Desencontros

Gosto de cor de vida e cor na vida. Gosto de saber que vivo de acordo com as regras do arco-íris em vez de viver num qualquer canto a preto e branco. Agora que penso nisso começo a pensar que devíamos todos nascer com semáforos incorporados.

 

Este é aquele momento em que alguns de vós começam a questionar até que ponto não terei um parafuso solto. Mas deixem-me desenvolver só mais um bocadinho. Este é o bem da escrita, aqui ninguém nos interrompe, podem não continuar a ler mas pelo menos ninguém nos impede de continuar o nosso raciocínio. Dizia eu, ou melhor, escrevia eu que devíamos nascer com semáforo incorporado não só pela beleza da cor e pela alternância de tons mas também pelo significado das mesmas. Devíamos ter semáforos que nos impedissem de seguir em frente quando é suposto parar. Que nos deviam impelir para um futuro brilhante quando insistimos em hesitar. Que nos alertassem para caminharmos mais ou menos devagar consoante os perigos ou dificuldades.

 

Maria dos Anjos fazia parte daquelas mulheres frequentemente designadas como interessantes. Para mim era uma mulher bonita que se cuidava de uma forma muito própria, para os outros limitava-se a ser apenas uma mulher interessante. Recordo-me do rosto bem definido, pele clara e grandes olhos negros que sempre que nos serviam riam-se sem ser necessário mover um músculo sequer do rosto. Os olhos falavam num silêncio onde muitas vezes me pareceu que imperava a tristeza ou talvez o tédio. Era isso mesmo que me fazia pensar naquela mulher como sendo diferente das com que eu me tinha cruzado.

 

Não gosto de cabelos curtos mas a ela este penteado ficava-lhe bem. Não gosto de lábios pintados de vermelho mas não a imagino sem eles assim. O corpo vestia-se sempre de uma forma cuidada alternando entre o sensual e o maternal. Sempre a vi de cores claras e sempre pensei que a cor do exterior contrastava com a tristeza interior. Mulher, sem dúvida, trabalhadora, admirada por uns e invejada por outros. Discreta, atenta onde a agitação interior era abafada por uma serenidade aparente.

 

Engravidara cedo do primeiro namorado que tivera, para trás ficou o sonho de ser médica e rumar a outros destinos. Um dia sonhara andar por terras distantes, mudar o mundo e salvar aqueles que dela precisassem. Todos os sonhos de voluntarismo e altruísmo foram esmagados por uns momentos de prazer vividos atrás da igreja. Seguiu-se a reposição da honra por parte do João dos Camiões rapaz de muitos princípios mas pouca visão no futuro. Depois veio o nascimento do Joãozinho, a morte do seus pais e a necessidade de continuar à frente de um negócio que não a realizava mas que pagava as contas e a deixava numa posição económica confortável.

 

Passaram 10 anos desde a última vez que aqui estive. Tirando o pormenor da cor da parede que passou de laranja para branco e as cadeiras da esplanada que deixaram de ser vermelhas para serem daquele amarelo que fere a vista a qualquer ser humano que ouse olhá-las sem qualquer protecção, está tudo na mesma. O rosto de Maria dos Anjos foi substituído pelo rosto de Joãozinho cujo diminutivo não faz qualquer sentido neste momento. Calculo que tenha uns 20 anos, os olhos são os da mãe mas os dele são mais expressivos de alegria do que os dela alguma vez foram, o nariz e a tez é a do pai. Consigo compará-los porque este está ali sentado a um canto com rosto enrugado e postura de derrota. De facto só damos valor ao que temos quando sentimos que o vamos perder.

 

Acabaram de me contar que Maria dos Anjos fugiu há uns 6 meses. Acabaram-me de me contar que Maria dos Anjos se perdeu de amores por um turista britânico que tinha estado aqui na aldeia uns tempos de férias. Acabaram de me contar que foi uma surpresa para todos apesar da honestidade da mesma. Acabaram de me contar que depois de uma conversa com o marido e outra com o filho seguiu em frente certa do caminho para onde seguia. Acabaram de me contar que esta semana chegaram notícias e que Maria dos Anjos anda por terras de África. O sentimento por ela continua o mesmo, uns admiram-na em silêncio, outros invejam-na nas palavras de censura.

 

Eu, aqui sentado brindo a ela num silêncio de admiração. Recordo-a a passear pelas mesas, recordo o sorriso com vontade de chorar, e a simpatia forçada pela necessidade. Recordo o contentamento descontente de um caminho que foi forçada a escolher. Recordo o brilho no olhar quando conversávamos sobre este ou aquele local. Recordo as perguntas e os suspiros de quem anseia por algo. Eu, aqui sentado brindo a uma mulher que não hesitou em seguir em frente mesmo que no semáforo social brilhasse o vermelho. Eu, aqui sentado brindo a um rosto cujo semáforo emocional a fez seguir em frente num verde cheio de esperança. Eu, aqui sentado só não brindo aos meus medos aos que um dia quando se aperceberam do meu fascínio por ela acenderam o sinal amarelo que me fez ficar ali cheio de cuidados e anseios.

 

Gosto da cor da vida … daquela que nos faz caminhar por caminhos coloridos com ou sem semáforos ligados com ou sem avisos mais ou menos esperados.

 

Marta Leal

Contos de Encontros e Desencontros

Era domingo um daqueles típicos de Inverno. Um dia triste que acaba com noite cerrada coberta de um nevoeiro intenso. Regresso a casa cansada e percorro a rua deserta. Caminho com passo apressado, o frio corta-me a respiração e eu só quero chegar a casa. Vejo um vulto a caminhar na minha direcção. A princípio não me assusto agora que penso nisso é engraçado que passos atrás de nós podem gerar o pânico e passos à nossa frente não nos perturbam. Vejo-o cada vez mais perto reparo que se enrola num cobertor e se tenta proteger do frio como pode. Um sem abrigo penso para mim mesma. Passamos lado a lado sem que os olhares se cruzem eu por receio ele talvez por vergonha.

 

O Joãozinho saltita à minha frente. Adora correr entre as poças de água. E, quando me apanha distraída salta de propósito para o meio delas. Faço que não vejo afinal de contas lembro-me do prazer que me dava fazer o mesmo quando tinha a idade dele. Afasta-se mais do que é costume, o meu coração acelera quando o vejo perto da estrada. Ouço um carro a descer a rua, largo os sacos e corro em direcção a ele. O coração bate acelerado, o corpo responde mas a voz não sai. Ele saltita no meio da estrada alheio ao perigo e ao que o rodeia. O carro aproxima-se, ouço o chiar de travões e vejo-o saltar e tirar o Joãozinho da estrada por uma fracção de segundos. Corro até eles. Abraço-me ao meu filho, não consigo suster as lágrimas. Olho para lhe agradecer mas ele já não está lá. Procuro-o no grupo de pessoas que se juntou à minha volta, vejo-o na esquina a espreitar assustado. Sorriu-lhe e digo obrigada muito baixinho. Ele sorri, acena e afasta-se.

 

Procuro-o durante semanas. Contacto com instituições, faço perguntas mas ninguém tem conhecimento de nenhum sem abrigo que pare por aquelas paragens. Preciso de lhe agradecer, preciso de o encontrar, preciso de retribuir o que fez por mim. O tempo passa mas não me faz esquecer. Nunca se esquece o que fazem pelos nosso filhos. E eu não esqueço que um dia aquele homem salvou a vida do Joãozinho.

 

Chega o verão e com ele a vontade de vaguear pelas esplanadas quando a noite acontece. O tempo convida a aproveitar ao máximo o dia quase como se não quiséssemos que ele acabasse. Estou concentrada na conversa que mantenho com os amigos, nas gargalhadas e na boa disposição. As crianças brincam por ali perto e enquanto os observo vejo-o caminhar para perto de nós. Levanto-me feliz por o ter reencontrado. Sinto uma divida de vida para com ele.

 

Aproximo-me, pergunto-lhe se se lembra de mim. Começo a explicar-lhe quem sou e ele responde que não é preciso. Conta-me que me conhece desde sempre. Diz que embora não andássemos nas mesmas turmas frequentamos as mesmas escolas. Fala-me de amigos de infância em comum. Fala-me de festas e espectáculos onde estivemos juntos. Faço um esforço mas não me recordo. Procuro-lhe no rosto sujo e cansado alguma referencia que me faça recordar. Culpabilizo-me e ele percebe. Diz que não tem importância que seguimos caminhos diferentes. Eu fui pelo certo ele pelo errado. Pergunta-me se me lembro desta ou daquela situação. Diz-me quem são os pais. Fico boquiaberta agora sim agora sei quem ele é. Lembro-me de ser uma miúda e babar quando ele passava. Aliás lembro-me de todas suspirarmos só por um sorriso, uma atenção daquele rapaz lindo.

 

Pergunto-lhe o que aconteceu. Explica-me que uma coisa levou à outra. Conta-me como se meteu nas drogas. As mentiras para ele próprio de que ia sair, de que não era viciado. As mentiras para os outros, o desespero para arranjar dinheiro para o vicio e todo um sem numero de situações que levaram todos à exaustão. A opção de viver na rua e o hábito que criou. Pergunto-lhe se continua tudo igual. Diz-me que não que o vício morreu há muitos anos. Mas que ninguém confiava nele para lhe dar uma oportunidade. Diz que errou e que está a pagar por isso.

 

Sinto-me angustiada e impotente perante uma situação destas. Digo-lhe que vou tentar ajudar. Digo-lhe que vou falar com pessoas. Responde-me que não vale a pena que já não sabe viver de outro modo. Diz que gostou de falar comigo que há muito tempo que não falava com ninguém. Vira-me as costas e eu chamo-o. Vira-se e sorri “afinal lembras-te do meu nome” diz-me. Pergunto-lhe se posso fazer alguma coisa por ele. Diz-me que a única coisa que posso fazer por ele é sorrir-lhe sempre que o encontrar.

 

Eu fico a vê-lo a afastar-se. Vestido com roupas remendadas, ombros descaídos e cabelo descuidado. Caminha vagarosamente como se arrastasse uma multidão atrás dele. Penso na ironia do destino e no facto daquele rapaz de quem eu ansiava um sorriso se ter tornado num homem que só pede a alguém que lhe sorria.

 

Somos as escolhas e os caminhos que decidimos fazer!

 

Marta Leal

Como se faz para não sentir saudades?

Não estou em mim de tão contente. Sinto-me leve, feliz. Tão feliz que me apetece beijar e abraçar toda a gente. Nada fazia prever este desfecho quando acordei hoje de manhã. Vaguei pela casa sem qualquer tipo de planos. Decidi-me por um pequeno-almoço no meu jardim preferido. Saí e fiz o caminho que sempre faço.

 

 Distraio-me a olhar para o lado e quando dou por isso bato no carro da frente. Saio do carro cheia de culpas. Ele sai também com um ar calmíssimo. Peço desculpa e viro-me para ir buscar os documentos. Sorri-me, diz que não tem problema. Pergunta-me se me recordo dele. Faço um esforço e não me recordo.  Peço desculpa digo que não me lembro mesmo nada. Insisto que deve estar a fazer confusão com outra pessoa qualquer.

 

Diz-me que não. Recorda-me o último dia de mãe, uma loja, uma criança e a necessidade de comprar um presente. Recordo-me agora recordo-me mas não dele. Recordo-me da situação mas não da cara. Os carros apitam atrás de nós fazendo-nos voltar à realidade. Propõe-me estacionarmos onde não incomodamos e convence-me a tomar um café para tratarmos de tudo.

 

Ainda estou impressionada com o facto de se recordar de tantos pormenores do dia em que n os cruzámos. Eu sou sincera continuo a afirmar que me lembro da cara do filho mas não da dele. Ele sorri diz que me vai levar a mal que já não bastava estragar-lhe o carro como afirmar que não me recordo da sua cara.  A conversa corre sem parar.  Perdemo-nos no tempo e no espaço. Sinto-me sozinha ali com ele como se de repente tudo o resto desaparecesse e deixasse de ter importância.

 

Despedimo-nos depois de horas de conversa que nem um nem outro queriam que terminasse. Liga-me mal entro no carro. Faço o caminho para casa sempre a conversar com ele e aqui estou eu a sonhar com alguém que um dia se cruzou comigo e que não me esqueceu. Aqui estou eu a sorrir por aquele rosto que vi mas não retive da primeira vez que encontrei.  

 

Acabou de me enviar uma mensagem que diz  “como se faz para não sentir saudades?”. Eu derreto-me. Estranho, derreto-me por alguém que acabei de conhecer.

 

Não posso acreditar no que aconteceu. Saio de casa para comprar o jornal. Ando uns 100 metros e eis que me batem por trás. Mal a vi sair do carro reconheci-a logo. Nunca a esqueci não pela beleza ou pela forma como vestia. Mas nunca a esqueci pela disponibilidade, a paciência e o carinho com que tratou o Afonso. Ele desesperava comigo porque queria comprar um presente especial á mãe. Eu já lhe tinha proposto mil e umas ideias. Ela estava perto de nós quando eu o tentava convencer a comprar uma planta. Passou a mão pela cabeça do Afonso e perguntou se podia ajudar. Ele deu-lhe a mão e arrastou-a por várias lojas do Centro Comercial.

 

No final agradeci-lhe ela respondeu-me que não tinha importância. Que o que interessava era o Afonso ter saído dali com o presente ideal. Pareceu-me triste mas amável.  O Afonso adorou-a. Lembro-me de me ter dito qualquer coisa como “uma namorada destas é que tu precisas”. Ri-me mas o que é certo é que nunca mais a esqueci.

 

Hoje conversámos durante horas. De inicio tive medo que voltasse a desaparecer mas depois percebi que estava tão confortável como eu. Enquanto os meus pensamentos correm a minha vontade de estar com ela aumenta. Não resisti a mandar-lhe uma mensagem correndo o risco de me tornar demasiado persistente.

 

Temo que não responda. Esperem, o telefone apitou é ela a resposta chegou “O melhor modo de não sentir saudades é nunca nos separarmos daquilo que gostamos”

E quando alguém fica com a nossa vida

 

Olho à volta sinto que todos andam a uma velocidade superior à minha. Quero fugir quero desaparecer mas não consigo mover-me. Ouço alguém perguntar-me se estou bem. Abano a cabeça em sinal de assentimento. Sinto-me noutra dimensão, os meus pensamentos fogem-me acelerados. Não quero nem posso pensar mais.

 

Paro. Não sei onde estou ou como vim aqui parar. O meu corpo anda sem sentido porque os meus pensamentos se encontram perdidos. Não consigo sequer chorar. Não sei o que sinto porque não sinto nada. Quero um ombro para chorar, quero uns braços que me abracem e me digam simplesmente “vai passar”

 

Olho, reconheço este sítio. Foi onde um dia gritaste para que todos ouvissem que me amavas. Sento-me no mesmo local e não aguento mais. Choro não sei por quanto tempo. Começo lentamente a deixar a dormência em que fiquei. Sinto dor, sinto raiva. Sinto o que nunca tinha sentido. As esperanças desapareceram e com ela a vontade de viver e de rir. Agora sinto tristeza e dor.

Queria fechar os olhos e só acordar quando tudo passasse. Tento mas não consigo, Era tão fácil se assim fosse.

 

Recordo tudo o que tivemos. Revivo emoções, sentimentos, desejos e paixão. Acordo para a realidade. Sinto-me dorida porque agora duvido se o que vivi foi verdadeiro. Não posso e não quero recordar mais. Dói muito dói demais.

 

Tomo uma decisão recuso-me a amar novamente. Não volto a sofrer por ninguém.”

 

Enquanto lia estas linhas Joana revivia tudo o que um dia tinha sofrido. O mau estar, a dor e, até as lágrimas voltaram. Encontrara este pequeno texto por acaso. Já se tinha esquecido que um dia o tinha escrito e mal se recordava do rosto de quem a tinha feito sentir assim. Engraçado as emoções voltarem todas ao de cima e as imagens não.

 

Fora naquela hora, naquele momento que decidira nunca mais voltar a amar. Hoje sabia que tinha sido uma decisão errada mas fora a que sentira há uns anos atrás. Hoje apetecia-lhe voltar a viver de forma menos sarcástica e azeda. Hoje gostava que alguém já sem rosto na sua memória não a tivesse feito alterar o meu modo de ser e de viver.

 

O tempo não se recupera. Os momentos não se recuperam podem-se reviver e recordar mas não se recuperam e hoje Joana hoje tinha vontade de voltar a trás mudar de decisões e, alterar o seu rumo.

 

Tinha consciência de que desde esse dia se tinha afastado de tudo o que a podia magoar. Deixara de viver com medo. Vivia rodeada de fantasmas de vida que a impediram de viver. Deixara de acreditar e ao mesmo tempo deixara de viver. Agora percebia que desde aquele dia que deixou de ser ela própria para ser aquilo em que deixara que a transformassem.

 

Hoje ao encontrar aquele texto seu percebera que já mal se recordava de quem lhe fizera mal. Hoje percebera que caíra na pior armadilha em que alguém pode cair. O permitir que alguém nos mude só porque nos fez perder as esperanças. O permitir que alguém fique com a nossa vida.

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