Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Por favor não insistas!

 

Não insistas por favor.  Sabes que não sou uma contador de histórias sou um contador de sentimentos. Não te posso contar a minha história se eu mesmo não percebo. Não tem nexo, não faz sentido e para mim tudo tem de fazer sentido. Perdoa-me não te posso contar a histórias porque não sou um contador de histórias. Mas se quiseres conto-te sentimentos porque isso eu sei fazer. Queres? Mas atenção que podes não perceber eu próprio não percebo e auto-intitulo-me como um contador de sentimentos Eu mesmo não percebo e senti, eu mesmo não percebo e estive lá. Ás vezes penso que foi tudo um sonho. Um sonho que nos transporta para uma realidade que gostariamos que existisse, um sonho bom que depois se transformou em mau. Sabes quando acordas com aquela sensação confusa em que te recordas de apenas algumas coisas que sonhaste? Por isso não sei se te consigo contar porque não sei se consigo contar emoções sentidas e vividas.

 

Vivia cada dia de forma frenética, corria de um lado para o outro, queria estar com todos e não queria estar com ninguém. Queria ser eu próprio mas ao mesmo tempo tinha de ser um deles. Tinha tudo mas ao mesmo tempo não tinha nada. Sentia o vazio tipico de quem não sabe viver porque só corria em busca de algo que ainda hoje não sei o que era. 

 

Nasci numa familia com todo o sentido. Tive pai, mãe, avós, tios e irmãos. Tinha tudo para ser feliz mas no entanto lutava contra essa felicidade. Segui os passos que todos queriam que eu seguisse ou que fosse normal todos seguirem. Namorei, casei, tive filhos e vivi o que queria viver ou o que os outros queriam que eu vivesse, se queres que te diga não sei bem. Ri, chorei, amei ou talvez não. Fiz o que sempre quis fazer ou talvez tenha feito o que os outros queriam que eu fizesse.

 

Sonhei com tudo e com mais alguma coisa. Os sonhos confundiram-se com a realidade. Hoje não sei quem sou, não sei quem fui, não sei para onde vou porque na realidade não sei de onde venho.

 

Pediste que te contasse a história da minha vida. É isto que recordo de tudo o que vivi ou penso que vivi. O sonho misturou-se com a realidade e a realidade misturou-se com o sonho. Guardo na memória rostos, acontecimentos, gestos e palavras que penso que vivi. Guardo na memória locais, paisagens, vidas e passagens que penso que vi. Guardo na memória sons, musicas e conversas que penso que ouvi. Guardo na memória toques e  sensações que penso que senti. Hoje não sei quem sou porque como te disse a realidade misturou-se com o sonho.

 

A minha história é igual ao de tantos outros que comigo se cruzaram só que a deles é real a minha não sei. Vivo a incerteza do presente porque não sei qual é o meu passado. Vivo a incerteza de quem sou do que fui e do que quero ser. Se queres saber a verdade não sei se vivo ou se simplesmente sonho que um dia vivi.

 

Esta é a minha história aquela que tu pediste que te contasse. Mas eu avisei que não sou um contador de histórias. Posso não saber quem sou mas sei quem não sou e, não sou um contador de histórias. Não tem nexo pois não? Não faz sentido? Para mim também não porque como te disse a minha história misturou-se com o meu sonho. Para mim só vale o hoje porque amanhã já não sei se fui mesmo ou se sonhei que era.

 

E tu sabes quem não és?

Escolhas, é tudo uma questão de escolhas

Era domingo um daqueles típicos de Inverno. Um dia triste que acaba com noite cerrada coberta de um nevoeiro intenso. Regresso a casa cansada e percorro a rua deserta. Caminho com passo apressado, o frio corta-me a respiração e eu só quero chegar a casa. Vejo um vulto a caminhar na minha direcção. A princípio não me assusto agora que penso nisso é engraçado que passos atrás de nós podem gerar o pânico e passos à nossa frente não nos perturbam. Vejo-o cada vez mais perto reparo que se enrola num cobertor e se tenta proteger do frio como pode. Um sem abrigo penso para mim mesma. Passamos lado a lado sem que os olhares se cruzem eu por receio ele talvez por vergonha.

 

O Joãozinho saltita à minha frente. Adora correr entre as poças de água. E, quando me apanha distraída salta de propósito para o meio delas. Faço que não vejo afinal de contas lembro-me do prazer que me dava fazer o mesmo quando tinha a idade dele. Afasta-se mais do que é costume, o meu coração acelera quando o vejo perto da estrada. Ouço um carro a descer a rua, largo os sacos e corro em direcção a ele. O coração bate acelerado, o corpo responde mas a voz não sai. Ele saltita no meio da estrada alheio ao perigo e ao que o rodeia. O carro aproxima-se, ouço o chiar de travões e vejo-o saltar e tirar o Joãozinho da estrada por uma fracção de segundos. Corro até eles. Abraço-me ao meu filho, não consigo suster as lágrimas. Olho para lhe agradecer mas ele já não está lá. Procuro-o no grupo de pessoas que se juntou à minha volta, vejo-o na esquina a espreitar assustado. Sorriu-lhe e digo obrigada muito baixinho. Ele sorri, acena e afasta-se.

 

Procuro-o durante semanas. Contacto com instituições, faço perguntas mas ninguém tem conhecimento de nenhum sem abrigo que pare por aquelas paragens. Preciso de lhe agradecer, preciso de o encontrar, preciso de retribuir o que fez por mim. O tempo passa mas não me faz esquecer. Nunca se esquece o que fazem pelos nosso filhos. E eu não esqueço que um dia aquele homem salvou a vida do Joãozinho.

 

Chega o verão e com ele a vontade de vaguear pelas esplanadas quando a noite acontece. O tempo convida a aproveitar ao máximo o dia quase como se não quiséssemos que ele acabasse. Estou concentrada na conversa que mantenho com os amigos, nas gargalhadas e na boa disposição. As crianças brincam por ali perto e enquanto os observo vejo-o caminhar para perto de nós. Levanto-me feliz por o ter reencontrado. Sinto uma divida de vida para com ele.

 

Aproximo-me, pergunto-lhe se se lembra de mim. Começo a explicar-lhe quem sou e ele responde que não é preciso. Conta-me que me conhece desde sempre. Diz que embora não andássemos nas mesmas turmas frequentamos as mesmas escolas. Fala-me de amigos de infância em comum. Fala-me de festas e espectáculos onde estivemos juntos. Faço um esforço mas não me recordo. Procuro-lhe no rosto sujo e cansado alguma referencia que me faça recordar. Culpabilizo-me e ele percebe. Diz que não tem importância que seguimos caminhos diferentes. Eu fui pelo certo ele pelo errado. Pergunta-me se me lembro desta ou daquela situação. Diz-me quem são os pais. Fico boquiaberta agora sim agora sei quem ele é. Lembro-me de ser uma miúda e babar quando ele passava. Aliás lembro-me de todas suspirarmos só por um sorriso, uma atenção daquele rapaz lindo.

 

Pergunto-lhe o que aconteceu. Explica-me que uma coisa levou à outra. Conta-me como se meteu nas drogas. As mentiras para ele próprio de que ia sair, de que não era viciado. As mentiras para os outros, o desespero para arranjar dinheiro para o vicio e todo um sem numero de situações que levaram todos à exaustão. A opção de viver na rua e o hábito que criou. Pergunto-lhe se continua tudo igual. Diz-me que não que o vício morreu há muitos anos. Mas que ninguém confiava nele para lhe dar uma oportunidade. Diz que errou e que está a pagar por isso.

 

Sinto-me angustiada e impotente perante uma situação destas. Digo-lhe que vou tentar ajudar. Digo-lhe que vou falar com pessoas. Responde-me que não vale a pena que já não sabe viver de outro modo. Diz que gostou de falar comigo que há muito tempo que não falava com ninguém. Vira-me as costas e eu chamo-o. Vira-se e sorri “afinal lembras-te do meu nome” diz-me. Pergunto-lhe se posso fazer alguma coisa por ele. Diz-me que a única coisa que posso fazer por ele é sorrir-lhe sempre que o encontrar.

 

Eu fico a vê-lo a afastar-se. Vestido com roupas remendadas, ombros descaídos e cabelo descuidado. Caminha vagarosamente como se arrastasse uma multidão atrás dele. Penso na ironia do destino e no facto daquele rapaz de quem eu ansiava um sorriso se ter tornado num homem que só pede a alguém que lhe sorria.

 

Caminhos certos? Caminhos errados?

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais visitados

    Arquivo

    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2014
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2013
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2012
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2011
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2010
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D