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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Encontro na Quinta Avenida

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"Eu estava a sair da Igreja de Saint Patrick, em Nova York, quando um rapaz brasileiro se aproximou.

- Que bom encontra-lo aqui - disse sorrindo. - Precisava muito de lhe dizer uma coisa.

Eu também gostei do encontro com um desconhecido. Convidei-o para tomar um café, contei a chatice que foi minha viagem para Denver, e sugeri que fosse a Harlem no Domingo seguinte para assistir a um serviço religioso.

O rapaz, que devia ter vinte e poucos anos, ouvia-me sem dizer nada.

Eu continuei a falar. Disse-lhe tinha acabado de ler um livro de ficção sobre um terrorista que tomava de assalto a Igreja de Saint Patrick, e o escritor descrevia tão bem o cenário que me tinha chamado a atenção para muitas coisas que nunc atinha prestado atenção nas minhas visitas ao local.  Por isso decidira  passar por ali naquela manhã.

Ficámos quase uma hora juntos, tomámos dois cafés, e eu falei durante todo esse tempo. No final, despedimos-nos, e desejei-lhe uma excelente viagem .

- Obrigado - disse ele, afastando-se.

Foi só aí que notei que os seus olhos estavam tristes; alguma coisa estava errado, e eu não sabia exactamente o quê. Só depois de caminhar alguns  quarteirões é que percebi: o rapaz tinha se aproximado de mim  a dizer que precisava muito de falar comigo.

Durante o tempo que passamos juntos, eu assumi o controle da situação. Em nenhum momento perguntei o que ele queria dizer; na tentativa de ser simpático, preenchi todos os espaços, não permitindo nenhum momento de silêncio, em que o rapaz finalmente pudesse transformar aquele monólogo num diálogo.

Talvez ele tivesse algo muito importante para partilhar comigo. Talvez, se naquele momento eu estivesse realmente atento teria algo para entregar ao rapaz. Talvez tanto a minha vida como a dele tivessem mudado radicalmente depois daquele encontro. Nunca vou saber, e não me vou torturar com o facto de que não soube aproveitar um momento mágico daquele dia; erros acontecem.

Mas, desde então, procuro manter viva na memória a cena da minha despedida e os olhos tristes do rapaz, quando eu não soube receber o que me era destinado, tão pouco consegui dar aquilo que eu queria, por mais que me esforçasse.

Do livro: Histórias para pais, filhos e netos
Paulo Coelho - Editora Globo

A Formiga e a Pomba

Era uma vez uma formiga que foi até á beira do rio para beber água, aproximando-se demais desiquilibrou-se e caiu. Ao ser arrastada pela corrente do rio estava prestes a afogar-se.

 

Uma pomba que voava por ali arrancou uma folha de uma árvore e deixou-a cair perto da formiga. A formiga subiu para cima da folha e conseguiu chegar á margem do rio em segurança.

 

Passado uns tempos um caçador andava a caçar por ali e avistou a pomba numa árvore alheia a qualquer perigo. Pé ante pé foi-se aproximando o mais silenciosamente que podia.

 

A formiga, ao perceber a sua intenção, deu-lhe uma mordidela no pé. O caçador  assustou-se o que deu tempo para que a pomba tivesses oportunidade de voar para longe dali.

 

Autor desconhecido

A cobiça

Conta-se que há muito muito tempo existia uma mulher que possuía uma galinha que lhe dava um ovo todos os dias. Muito ambiciosa começou a pensar como é que poderia ter dois ovos por dia em vez de um. Então, para atingir o seu objectivo resolveu aumentar, para o dobro, a ração que dava á galinha. Acontece que a galinha começou a engordar e tornou-se tão preguiçosa que nunca mais pôs ovo nenhum.

 

autor desconhecido

O que é que tenho de largar?

 

Dois monges budistas voltam do mosteiro depois de chover. Eles chegam a um rio cheio de água e em frente deles está uma senhora extremamente bonita com um quimono de seda delicado, angustiada porque ela não é capaz de atravessar o rio sozinha. Então, o monge mais velho pegou nela, carregou-a de forma segura até ao outro lado do rio e os dois monges continuaram o seu caminho em silêncio. Cinco horas depois, ao chegarem ao seu destino, o monge mais novo, literalmente fumegante, explode: “Como pudeste? Tocaste numa mulher! Tu sabes que não nos é permitido isso!” O monge mais velho responde: “Eu larguei-a à 5 horas atrás, mas tu ainda estás com ela atrás”.

É impossível.

 

 " - Não consigo subir nesse morro - disse o menininho. - É impossível. O que vai me acontecer? Vou passar a vida inteira aqui no pé do morro. É terrível demais!

      - Que pena! - disse a irmã. - Mas olhe, maninho! Descobri uma brincadeira ótima! Dê um passo e veja se consegue deixar uma pegada bem nítida na terra. Olhe só para a minha! Agora, você veja se consegue fazer uma tão boa assim!

      O menininho deu um passo:

      - A minha está igual!

      -Você acha? - disse a irmã. - Olhe a minha, de novo, aqui! Eu faço mais forte que você, porque sou mais pesada e por isso a pegada fica mais funda. Tente de novo.

      -Agora a minha está tão funda quanto a sua! - gritou o menininho. - Olhe! Esta, esta e esta, estão o mais fundas possível!

      -É, está muito bom mesmo - disse a irmã - , mas agora é minha vez, deixe eu tentar de novo e vamos ver!

      Eles continuaram, passo a passo, comparando as pegadas e rindo da nuvem de poeira cinzenta que lhes subia por entre os dedos descalços.

      Dali a pouco, o menininho olhou para cima.

      -Ei - disse ele - , nós estamos no alto do morro!

      -Nossa! - disse a irmã. - Estamos mesmo."

      Do livro: O Livro das Virtudes II - O compasso moral      

William J. Bennett - Ed. Nova Fronteira

A solução esta na realidade

 

Era uma vez um grande quintal onde reinava soberano e poderoso galo. Orgulhoso de sua função, nada acontecia no quintal sem que ele soubesse e participasse. Com sua força descomunal e coragem heróica, enfrentava qualquer perigo. Era especialmente orgulhoso de si mesmo, de suas armas poderosas, da beleza colorida de sua penas, de seu canto mavioso.

Toda manhã acordava pelo clarão do horizonte e bastava que cantasse duas ou três vezes para que o sol se elevasse no céu. "O sol nasce pela força do meu canto", dizia ele. "Eu pertenço à linhagem dos levantadores do sol. Antes de mim era meu pai; antes de meu pai era meu avô" ...

Um dia uma jovem galinha de beleza esplendorosa veio morar em seu reinado e por ela o galo se apaixonou. A paixão correspondida culminou numa noite de amor para galo nenhum botar defeito. E foi aquele amor louco, noite adentro. Depois do amor, já de madrugada veio o sono. Amou profundamente e dormiu profundamente. As primeiras luzes do horizonte não o acordaram como de costume. Nem as segundas...Para lá do meio dia, abriu os olhos sonolentos para um dia azul, de céu azul brilhantee levou um susto de quase cair. Tentou inutilmente cantar, apenas para verificar que o canto não lhe passava pelo nó da garganta. -"Então não sou eu quem levanta o sol?", Comentou desolado para si mesmo. E caiu em profunda depressão. O reconhecimento de que nada havia mudado no galinheiro enquanto dormia trouxe-lhe um forte sentimento de inutilidade e um questionamento incontrolável de sua própria competência. E veio aquele aperto na garganta. A pressão no peito virou dor. A angústia se instalou definitivamente e fez com que ele pensasse que só a morte poderia solucionar tamanha miséria. "O que vão pensar de mim?", murmurou para si mesmo, e lembrou daquele galinho impertinente que por duas ou três vezes ousou de longe arrastar-lhe a asa. O medo lhe gelou nos ossos. Medo. Angústia. Andou se esgueirando pelo cantos do galinheiro, desolado e sem saida. Do fundo de seu sentimento de impotência, humilhado, pensou em pedir ajuda aos céus e rezou baixinho, chorando. Talvez tenha sido este momento de humildade, único em sua vida, que o tenha ajudado a se lembrar que, em uma árvore, lá no fundo do galinheiro, ficava o dia inteiro empoleirado um velho galo filósofo que pensava e repensava a vida do galinheiro e que costumava com seus sábios conselhos dar orientações úteis a quem o procurasse com seus problemas existenciais.

O velho sábio o olhou de cima de seu filosófico poleiro, quando ele vinha se esgueirando, tropeçando nos próprio pés, como que se escondendo de si mesmo. E disse: "Olá! Você nem precisa dizer nada, do jeito que você está. Aposto que você descobriu que não é você quem levanta o sol. Como foi que você se distraiu assim? Por acaso andou se apaixonando?" Sua voz tinha um tom divertido, mas ao mesmo tempo compreensivo, como se tudo fosse natural para ele. A seu convite, o galo angustiado, empoleirou-se a seu lado e contou-lhe a sua história. O filósofo ouviu cada detalhe com a paciência dos pensadores. Quando o consulente já se sentia compreendido, o velho sábio fez-lhe uma longa preleção:

"Antes, quando você ainda achava que até o sol se levantava pelo poder do seu canto, digamos que você estava enganado. Para definir seu problema com precisão, você tinha o que pode ser chamado de "Ilusão de Onipotência". Então, pela mágica do amor, você descobriu o seu próprio engano, e até ai estaria ótimo, porque nenhuma vantagem existe em estar tão iludido. Saiba você que ninguém acredita realmente nessa história de canto de galo levantar o sol. Para a maioria, isto é apenas simbólico: só os tolos tomam isto ao pé da letra. "Entretanto, agora", continuou o sábio pensador, "Você está pensando que não tem mais nenhum valor, o que é de certa forma compreensível em quem baseou a vida em tão grande ilusão. Contudo, examinando a situação com maior profundidade, você está apenas trocando uma ilusão por outra ilusão. O que era uma "Ilusão de Onipotência" pode ser agora chamado de "Ilusão de incompetência". Aos meus olhos, continuou o sábio, nada realmente mudou. Você era, é e vai continuar sendo, um galo normal, cumpridor de sua função de gerenciar o galinheiro, de acordo com a tradição dos galináceos." Seu maior risco, continuou o pensador, é o de ficar alternando ilusões. Ontem era a Ilusão de Onipotência, hoje, Ilusão de Incompetência. Amanhã você poderá voltar à Ilusão de Onipotência novamente, e depois ter outra desilusão... Pense bem nisto: uma ilusão não pode ser solucionada por outra ilusão. A solução não está nem nas nuvens nem no fundo do poço. A solução esta na realidade. Após um longo período de silêncio, o velho galo filósofo voltou-se para os seus pensamentos. Nosso herói desceu da árvore para a vida comum do galinheiro. No dia seguinte, aos primeiros raios da manhã, cantou para anunciar o sol nascente. E tudo continuou como era antes.

 

Autor:   Maurício de Souza Lima  O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. – Psicólogo

Águia ou Galinha?

Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Embora a águia fosse o rei / rainha de todos os pássaros. Depois de 5 anos , este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

Esse pássaro aí não é galinha .É uma águia.

De fato - disse o camponês . É águia . Mas eu criei como galinha. Ela não é mais águia . Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de envergadura.

- Não - retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.

- Não, não - insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então decidiram fazer uma prova . O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse: Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra as asas e voe!

A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas.

- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!

- Não - tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no telhado da casa. Sussurrou-lhe:

- Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe!

Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.

O camponês sorriu e voltou à casa:

- Eu lhe havia dito, ela virou galinha!

- Não - respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas.

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe :

- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

A águia olhou ao redor . Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Neste momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico KauKau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou...voou... até confundir-se com o azul do firmamento...

Somos águias! Do livro "O Despertar da Águia" de Frei Leonardo Boff.

"Quero saber quais são seus sonhos."

 

Há alguns anos, aceitei uma atribuição numa cidade do sul para trabalhar numa obra assistencial do governo. O que eu queria era mostrar que todo mundo tem capacidade de ser auto-suficiente, basta que essa capacidade seja ativada. Pedi à cidade que selecionasse um grupo de pessoas da obra assistencial, pessoas de diferente grupos raciais e famílias. Assim, eu veria essas pessoas, em grupo, durante três horas, todas as sextas-feiras. Pedi também uma pequena quantia em dinheiro para o trabalho, conforme minha necessidade.

A primeira coisa que eu disse depois de apertar as mãos de todos foi: "Quero saber quais são seus sonhos." Todos me olharam como se eu fosse alguma desequilibrada.

¾Sonhos? Não temos sonhos.

Eu disse:

¾Bem, o que aconteceu quando você era criança? Não tinha algo que queria fazer?

Uma mulher me disse:

¾Não sei para que servem os sonhos. Os ratos estão comendo meus garotos.

¾Oh ¾eu disse. ¾Isso é terrível. Não, é claro, você esta muito envolvida com os ratos e seus garotos. Como pode se resolver isto?

¾Bem, eu poderia utilizar uma nova porta de tela porque há buracos na minha.

Perguntei:

¾Há alguém aqui que saiba consertar uma porta de tela?

Havia um homem no grupo, que disse:

¾Eu costumava fazer coisas assim há muito tempo, mas agora tenho uma terrível dor nas costas. No entanto, vou tentar.

Eu disse a ele que tinha algum dinheiro, se ele iria até a loja comprar um pouco de tela para consertar a porta da senhora.

¾Acha que pode fazer isso?

¾Sim, vou tentar.

Na semana seguinte, quando o grupo se sentou, eu disse:

¾Bem, sua porta de tela está consertada?

¾Oh, sim - ela disse.

¾Podemos então começar a sonhar, não podemos?

Ela deu um meio sorriso.

Eu disse ao homem que havia feito o trabalho:

¾Como se sente?

Ele disse:

¾Bem, sabe, é muito engraçado. Estou começando a me sentir muito melhor.

Aquilo ajudou o grupo a começar a sonhar. Estes aparentemente pequenos sucessos permitiram que o grupo visse que os sonhos nao eram insanos. Estes pequenos passos começaram a fazer as pessoas sentirem que algo podia realmente acontecer.

Comecei a perguntar a outras pessoas sobre seus sonhos. Uma mulher contou que sempre quisera ser secretária. Eu disse:

¾Bem, o que a impede? (Esta é sempre minha próxima pergunta.)

Ela disse:

¾Tenho seis filhos e ninguém que tome conta deles enquanto estou fora.

¾Vamos ver - eu disse - Há alguém aqui que tome conta de seis crianças por um dia ou dois na semana enquanto esta mulher faz um treinamento na faculdade da comunidade?

Uma mulher disse:

¾Também tenho filhos, mas poderia fazer isso.

¾Mãos à obra - eu disse. Então criou-se um plano e a mulher foi para a escola.

Todos encontraram algo. O homem que instalou a porta de tela tornou-se faz-tudo. A mulher que tomou conta das crianças transformou essa atividade em profissão. Em doze semanas, todas aquelas pessoas estavam fora da obra assistencial. E eu não fiz isso uma única vez, tenho feito muitas vezes.

Virginia Satir                 

Do livro: "Canja de galinha para a alma" Jack Canfield e Mark Victor Hansen - Ediouro

"Cultivar um sentimento de proximidade e calor humano compassivo pelo outro, automaticamente coloca a nossa mente num estado de paz"

 

"Durante uma era glacial, muito remota, quando o Globo terrestre esteve coberto por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao frio intenso e morreram indefesos, por não se adaptarem as condições do clima hostil.

Foi então que uma grande manada de porcos-espinhos, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começou a se unir, a juntar-se mais e mais. Assim cada um podia sentir o calor do corpo do outro. E todos juntos, bem unidos, agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se, enfrentando por mais tempo aquele inverno tenebroso. Porém, vida ingrata, os espinhos de cada um começaram a ferir os companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor, aquele calor vital, questão de vida ou morte. E afastaram-se, feridos, magoados, sofridos.

Dispersaram-se por não suportarem mais tempo os espinhos dos seus semelhantes. Doíam muito…….

Mas, essa não foi a melhor solução: afastados, separados, logo começaram a morrer congelados.Os que não morreram, voltaram a se aproximar, pouco a pouco, com jeito, com precauções, de tal forma que, unidos, cada qual conservava uma certa distância do outro, mínima, mas suficiente para conviver sem ferir, para sobreviver sem magoar, sem causar danos recíprocos. Assim, aprendendo a amar, resistiram a longa era glacial. Sobreviveram.

"Quanto mais nos ocupamos com a felicidade dos outros, maior passa a ser nosso senso de bem-estar. Cultivar um sentimento de proximidade e calor humano compassivo pelo outro, automaticamente coloca a nossa mente num estado de paz. Isto ajuda a remover quaisquer medos, preocupações ou inseguranças que possamos ter, e nos dá muita força para lutar com qualquer obstáculo que encontrarmos. Esta é a causa mais poderosa de sucesso na vida."

Tenzin Gyatso, XIV Dalai Lama Prêmio Nobel da Paz de 1989

Um som por um perfume

Um pobre viajante parou ao meio-dia para descansar à sombra de uma frondosa árvore. Ele viera de muito longe e sobrara apenas um pedaço de pão para almoçar. Do outro lado da estrada, havia um quiosque com tentadores pastéis e bolos; o viajante se deliciava sentindo as fragrâncias que flutuavam pelo ar, enquanto mascava seu pedacinho de pão dormido. Ao se levantar para seguir caminho, o padeiro subitamente saiu correndo do quiosque, atravessou a estrada e agarrou-o pelo colarinho.

       - Espere aí! - gritou o padeiro. - Você tem que pagar pelos bolos!

       - Que é isso? - protestou o espantado viajante. - Eu nem encostei nos seus bolos!

       - Seu ladrão! - berrava o padeiro. - É perfeitamente óbvio que você aproveitou seu próprio pão dormido bem melhor, só sentindo os cheirinhos deliciosos da minha padaria. Você não sai daqui enquanto não me pagar pelo que levou. Eu não trabalho à toa não, camarada!

Uma multidão se juntou e instou para que levasse o caso ao juiz local, um velho muito sábio. O juiz ouviu os argumentos, pensou bastante e depois ditou a sentença.

       - Você está certo - disse ao padeiro. - Este viajante saboreou os frutos do seu trabalho. E julgo que o perfume dos seus bolos vale três moedas de ouro.

       - Isso é um absurdo! Objetou o viajante. - Além disso, gastei meu dinheiro todo na viagem. Não tenho mais nem um centavo.

       - Ah... - disse o juiz. - Neste caso, vou ajudá-lo.

       Tirou três moedas de ouro do próprio bolso, e o padeiro logo avançou para pegar.

       - Ainda não - disse o juiz. - Você diz que esse viajante meramente sentiu o cheiro dos seus bolos, não é?

       - É isso mesmo - respondeu o padeiro.

       - Mas ele não engoliu nem um pedacinho?

       - Já lhe disse que não.

       - Nem provou nem um pastel?

       - Não!

       - Nem encostou nas tortas?

       - Não!

       - Então, já que ele consumiu apenas o perfume, você será pago apenas com som. Abra os ouvidos para receber o que você merece.

       O sábio juiz jogou as moedas de uma mão para outra, fazendo-as retinir bem perto das gananciosas orelhas do padeiro.

       - Se ao menos você tivesse a bondade de ajudar esse pobre homem em viagem - disse o juiz -, você até ganharia recompensas em ouro, no Céu.

 

Autor desconhecido.