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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Recomeço

Estou sentado à beira rio não me lembro ultima vez que aqui estive. Sinto-me desorientado como há muito não me sentia. Penso em tudo e não penso em nada. O telemóvel toca insistentemente não atendo nem sequer me apetece ver quem é. Não quero falar com ninguém, não quero contar a ninguém. Não quero porque sinto que falhei. Não quero porque tenho medo que tenham pena de mim. Como eu já senti de tantos outros na mesma situação que eu.

 

Perco a noção do tempo. Choro pelo que perdi no passado choro pelo que acabei de perder. Relembro as festas de escola que perdi dos meus filhos. Relembro o olhar triste quando me viam chegar atrasado sempre atrasado. Relembro as discussões que tive com a minha mulher por não estar mais em casa. Dizia-lhe sempre que estava a construir o nosso futuro e ela respondia-me sempre que queria um presente. Porque sem presente não havia futuro.  Regresso a tantas situações em que magoei os outros pela minha ausência porque tinha de continuar, porque não podia parar.

 

Percebo agora que queria mais sempre muito mais. Primeiro veio a casa, depois veio carro, depois os miudos, as viagens a casa maior. E, nunca parei para pensar as despesas aumentaram e eu queria mais sempre mais. Fui-me afastando da familia por falta de tempo. Achava que estava no bom caminho. Cheguei a pensar neles como ingratos afinal eu proporcionava-lhes tudo o que tinham. E, agora como é que vão olhar para mim? Como um fraco que não serve para nada.

 

Não os conheço bem. Os miudos estão a crescer e eu não os conheço bem. Para quê? Tanta dedicação a uma carreira, tanta dedicação a uma empresa. Senhor Doutor gostava-mos de o informar que foi dispensado das suas funções. Sairá desta empresa com todas as contas feitas e garanto-lhe que não vamos ser injustos consigo. Como é que podem sequer pensar que não estão a ser injustos comigo. Construi esta empresa e tornei-a naquilo que é hoje. Enquanto construia a empresa tenho a certeza que ia destruindo a familia. Nunca tinha parado para pensar até hoje.  Estou aqui há horas, perdi a noção do tempo tal como há muito tempo perdi a noção da vida.

 

Não sei que fazer não consigo sequer concentrar-me no que devo fazer. Não consigo pensar no presente porque hoje o passado é que conta. Sinto-me desesperado preciso de ajuda mas não sei a quem recorrer. Ao fim destes anos todos não estabeleci laços de amizade com muita gente porque não tinha tempo nunca tinha tempo. Sinto-me sozinho como sempre me senti. Mas se antes pensei que não precisava de ninguém agora sinto-me sozinho porque não tenho ninguém com quem falar. Acalmo-me tento acalmar-me e sigo em direcção a casa.

 

Tenho medo que não gostem mais de mim. Tenho medo que me julguem  que me critiquem. Mas tenho, sobretudo, medo que tenham pena de mim. Como é que lhes vou dizer que podemos perder tudo? Como é que lhes vou dizer que temos de mudar de vida? Como é que lhes vou dizer que não sei o que fazer? Hoje, não sei o que fazer. Sinto-me impotente perante esta rasteira da vida porque não sei o que fazer.

 

Hesito em entrar. Sinto-me derrotado e não queria que me vissem assim. Converso com a minha mulher conto-lhe tudo tento desculpar-me. Ela, não me deixa continuar. Diz que é injusto mas que a vida por vezes é assim.  Pergunta-me se já sei o que fazer abano a cabeça como resposta. Olha para mim e diz que juntos vamos conseguir. Que temos umas economias que juntamente com a indmnização dá para nos aguentar, que o ordenado dela também não é assim tão mau. Olho para ela com admiração nunca tinha percebido que podia ser tão forte. Passamos horas de volta das contas e começo a ver uma luz ao fundo do tunel. Combinamos dispensar a empregada, vender um dos carros e ter muito cuidado com os outros gastos.  Entretanto, diz-me ela, tens subsidio de desemprego e vais procurando outra coisa. Vais ver que vamos conseguir. Pergunto-lhe como vai ser com os miudos. Responde-me que falamos com eles e que vão entender. Que não tenho de ter medo de lhes contar. Que eles são miudos equilibrados e que vão entender.

 

Nessa noite lembro-me de dormir muito bem. Os dias que se passaram oscilaram entre a descontração e a preocupação. Passaram quase dois anos. Mudamos de casa para uma mais pequena. Fui fazendo um ou outro trabalho que foi aparecendo. As coisas não foram faceis mas as poupanças e os bens que se foram vendendo facilitaram muito. Hoje começo num novo emprego. O salário é baixo mas foi o que consegui. Hoje tenho consciencia que perdi um emprego mas ganhei uma familia. Se continuasse pelo caminho por onde ia tinha emprego mas se calhar já não tinha familia. Não foi fácil, as angústias, os meus medos, as minhas alterações de estados de espirito,  a minha revolta e a minha dor fizeram com que muitas vezes perdessem a paciência comigo.

 

Estou no mesmo sitio onde estava há 2 anos junto ao rio. A minha vida mudou como nunca pensei que mudasse. Andei triste e desorientado. Senti-me impotente e envergonhado mas já passou tudo passa. Olho e sinto o que não senti naquele dia. Olho e sinto esperança de que as coisas vão melhorar. Hoje não me sinto sozinho porque hoje tenho com quem falar. Hoje sinto-me bem porque hoje vou recomeçar.

 

 

E tu quando é que te atreves a avançar?

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