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Irreverências No Feminino

By Marta Leal

Irreverências No Feminino

By Marta Leal

E tu costumas deixar a vida fluir?

Não estou em mim de tão contente. Sinto-me leve, feliz. Tão feliz que me apetece beijar e abraçar toda a gente. Nada fazia prever este desfecho quando acordei hoje de manhã. Vagueei pela casa sem qualquer tipo de planos. Decidi-me por um pequeno-almoço no meu jardim preferido. Saí e fiz o caminho que sempre faço.

 

 Distraio-me a olhar para o lado e quando dou por isso bato no carro da frente. Saio do carro cheia de culpas. Ele sai também com um ar calmíssimo. Peço desculpa e viro-me para ir buscar os documentos. Sorri-me, diz que não tem problema. Pergunta-me se me recordo dele. Faço um esforço e não me recordo.  Peço desculpa digo que não me lembro mesmo nada. Insisto que deve estar a fazer confusão com outra pessoa qualquer.

 

Diz-me que não. Recorda-me o último dia de mãe, uma loja, uma criança e a necessidade de comprar um presente. Recordo-me agora recordo-me mas não dele. Recordo-me da situação mas não da cara. Os carros apitam atrás de nós fazendo-nos voltar à realidade. Propõe-me estacionarmos onde não incomodamos e convence-me a tomar um café para tratarmos de tudo.

 

Ainda estou impressionada com o facto de se recordar de tantos pormenores do dia em que nos cruzámos. Eu sou sincera continuo a afirmar que me lembro da cara do filho mas não da dele. Ele sorri diz que me vai levar a mal que já não bastava estragar-lhe o carro como afirmar que não me recordo da sua cara.  A conversa corre sem parar.  Perdemo-nos no tempo e no espaço. Sinto-me sozinha ali com ele como se de repente tudo o resto desaparecesse e deixasse de ter importância.

 

Despedimo-nos depois de horas de conversa que nem um nem outro queriam que terminasse. Liga-me mal entro no carro. Faço o caminho para casa sempre a conversar com ele e aqui estou eu a sonhar com alguém que um dia se cruzou comigo e que não me esqueceu. Aqui estou eu a sorrir por aquele rosto que vi mas não retive da primeira vez que encontrei.  

 

Acabou de me enviar uma mensagem que diz  “como se faz para não sentir saudades?”. Eu derreto-me. Estranho, derreto-me por alguém que acabei de conhecer.

 

Não posso acreditar no que aconteceu. Saio de casa para comprar o jornal. Ando uns 100 metros e eis que me batem por trás. Mal a vi sair do carro reconheci-a logo. Nunca a esqueci não pela beleza ou pela forma como vestia. Mas nunca a esqueci pela disponibilidade, a paciência e o carinho com que tratou o Afonso. Ele desesperava comigo porque queria comprar um presente especial á mãe. Eu já lhe tinha proposto mil e umas ideias. Ela estava perto de nós quando eu o tentava convencer a comprar uma planta. Passou a mão pela cabeça do Afonso e perguntou se podia ajudar. Ele deu-lhe a mão e arrastou-a por várias lojas do Centro Comercial.

 

No final agradeci-lhe ela respondeu-me que não tinha importância. Que o que interessava era o Afonso ter saído dali com o presente ideal. Pareceu-me triste mas amável.  O Afonso adorou-a. Lembro-me de me ter dito qualquer coisa como “uma namorada destas é que tu precisas”. Ri-me mas o que é certo é que nunca mais a esqueci.

 

Hoje conversámos durante horas. De início tive medo que voltasse a desaparecer mas depois percebi que estava tão confortável como eu. Enquanto os meus pensamentos correm a minha vontade de estar com ela aumenta. Não resisti a mandar-lhe uma mensagem correndo o risco de me tornar demasiado persistente.

 

Temo que não responda. Esperem, o telefone apitou é ela a resposta chegou “O melhor modo de não sentir saudades é nunca nos separarmos daquilo que gostamos”.

 

E quando foi a ultima vez que te permitiste deixar a vida fluir?

 

 

Ausência e Presença

 (imagem retirada da net)

 

A uma ausência de tempo sobrepõe-se uma ausência de afazeres. Alterna-se entre um dormir  profundo e uma letargia diária. E foi assim que se passaram os primeiros dias  de férias onde me permiti descansar naquele descanso merecido e onde o o dormir foi aquilo que alguns designam por sono dos justos.

 

E estando de volta estou a começar a sentir saudades daqueles dias em que a ausencia de afazeres se sobrepunha á ausencia de tempo.

 

Um dia com sabor a preseça, muita presença.

 

Cada vez mais

 (imagem retirada da net)

 

Com a minha idade começamos a ter a percepção do envelhecimento não só do nosso mas como daqueles que nos rodeiam. Lidamos com  a morte daqueles que um dia foram tão vigorosos. Lidamos com as incapacidades fisicas e começamos a questionar o que vale ou não vale a pena. Começamos a questionar qual é o legado que queremos deixar. Começamos a questionar o sentido que demos à vida.

 

Cada vez mais acredito que faz sentido ser eu mesma: no ser e no estar. Cada vez mais acredito que faz sentido viver na autenticidade daquilo que me faz vibrar e sentir. Cada vez mais acredito que faz sentido o segundo porque a hora pode não chegar.

 

Depressa. Passa demasiado depressa para que não sejamos quem gostamos de ser.

 

Um dia com sabor a sentir, muito sentir

 

Marta Leal

Saudades

(Imagem retirada da net)
 
 

Hoje enquanto me preguiçava naquele hábito diário de “programar” o dia pensei em saudades. Pensei na verdadeira razão das saudades. Pensei que quando sinto saudades não é apenas do outro, não é apenas do momento, não é apenas dos cheiros, não é apenas dos toques, não é apenas de um sabor.

 

Quando sinto saudades de alguém sinto saudades do meu eu com o outro, sinto saudades de nós. Quanto sinto saudades de um beijo sinto saudades do nosso beijo, quando sinto saudades de um abraço sinto saudades do nosso abraço, quando sinto saudades de um toque sinto saudades daquilo que rapidamente deixa de ser meu e se transforma em nosso.

 

Porque afinal as saudades são de um todo que é muito mais que a soma das partes.

 

Saudades, saudades vossas!

 

Marta Leal

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